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MADUREIRA ABRE-ALAS E PEDE PASSAGEM

Esse Escriba ama o Rio de Janeiro e, com orgulho, repete em alto e bom som que é um “carioca da gema”. No entanto, o Rio de Janeiro para ele não é apenas aquele da Zona Sul, com suas belíssimas praias e botecos com chopes geladíssimos à beira-mar, tão cantado pelos poetas e vislumbrado pelos turistas dos quatro cantos do mundo.

A bem da verdade, o meu Rio de Janeiro é mais continental, abafado e povoado de pessoas. O meu Rio é aquele do Subúrbio, localizado na Zona Norte, onde fica Madureira – lugar onde nasci e onde rememoro a minha infância, a cada vez que passo por lá… É nas ruas caóticas desse bairro, que encontro um pouco da minha história, aqui e ali. Pode ser no comércio de rua apinhado de gente, nas estações de trem de Cascadura, Madureira e Magno, na Praça do Patriarca lá do outro lado da estação, no Viaduto Negrão de Lima, na Estrada do Portela, no Pólo Um…

O meu Rio é muito quente – tanto de calor quanto da proximidade das pessoas… É terra de bambas, de Natal a Mano Décio da Viola, onde se baila o jongo, com as pastoras a se mover ao som do batuque que homenageia os seus ancestrais… É terra também de pregões, de mascates, de ambulantes e camelôs, tentando cada um defender o seu pão de cada dia, numa mistura cacofônica de vozes, cantorias e chamamentos. “Três por dez”, “Pode chegar freguesa”, “É um Real”…

É local também da bola, onde uma escola de craques abre alas e pede passagem… Lá, encravado no mar de lojas do Mercadão de Madureira, se ergue o Madureira Esporte Clube – o meu querido Tricolor Suburbano. No gramado da Conselheiro Galvão desfilaram craques do passado e do presente que fizeram tanto o nosso povo sofrido sorrir: Didi, Evaristo de Macedo, Jair da Rosa Pinto, Isaiás, Lelé, Nelsinho, Marcelinho Carioca… É o time que vem, nos últimos anos, assustando os grandes no Campeonato Carioca – Campeão da Taça Rio de 2006 e Vice-Campeão Carioca em 1936, 1996 e 2006.

Lá, quando joga o Madureira, o Morro da Serrinha se engalana todo, faceiro, a torcer pelo seu esquadrão azul, amarelo e grená! No alto do morro, no mastro da igreja, tremula o pavilhão do Tricolor, como testemunha da paixão de seus torcedores, expressa nas faixas postas no alambrado ao redor do campo – “Madureira eu te amo”!

O meu Rio é o das cadeiras de praia na beira da rua, do papo descontraído com a galera de amigos no final do dia, do chopinho gelado no “pé-sujo” mais próximo – um oásis no deserto de concreto…

Quando o Madura não joga, vamos todos ao Maracanã, subir a rampa da UERJ e contemplar os deuses do futebol no majestoso estádio… Para mim, não tem discussão: não tem Pão de Açúcar, Corcovado, Copacabana ou Ipanema… o símbolo da minha cidade é o Maracanã, lotado de gente em dia de clássico, com suas bandeiras e cânticos entoados pelas torcidas, verdadeira liturgia ao ar livre, uma ópera polifônica cujo libretto é repleto de paixões enlouquecidas e explosões de gritos de gols, de olés e chapéus, de chutes de fora da área e cabeçadas certeiras, daquelas que dão gosto, pois estufam o barbante…

O meus queridos leitores podem dizer que esse Rio de Janeiro é uma invenção desse Escriba… Sim, mas o escritor Italo Calvino já dizia que as cidades são insígnias em nossas mentes, como um fantasma de zodíacos que habita o nosso pensamento…

Se esse Escriba se tornou um emblema dentre outros, pouco importa… O meu Rio está em extinção… mas ele ainda se encontra lá, escondido nos recônditos do concreto das praças e do asfalto das ruas, um fóssil a ser descoberto pelas gerações futuras…
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