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DICA DE LIVRO – ROBERT FISK: Pobre Nação – As Guerras do Líbano no Século XX

Terminei a leitura do poderoso tratado jornalístico sobre o Líbano recente, escrito pelo polêmico articulista britânico Robert Fisk – ex-correspondente do The Times para o Oriente Médio durante os turbulentos anos 1970-1980, atualmente cobrindo a região para o jornal inglês de esquerda The Independent.

Em uma verdadeira tour de force de quase mil páginas, Pobre Nação: as guerras do Líbano no Século XX (Editora Record, 2007) é uma ode a insensatez e a insanidade por parte dos governantes tanto do Oriente Médio – árabes e judeus – quanto das grandes potências (principalmente, os Estados Unidos). É uma mostra de como pode ser explosiva a tentativa de manipulação, por parte de governos estrangeiros, de grupos políticos internos de um determinado país. Apesar de estarem envolvidos atores diferentes, as semelhanças são inevitáveis. Basta pensar no Vietnã, na Argélia, no Cambodja, no Irã – e, mais atualmente, no Afeganistão, no Iraque, no Paquistão….

A temática do livro – os sangrentos conflitos “internos” do Líbano no século XX – é espinhosa e densa, uma vez que a questão desperta um torvelinho de opiniões conflitantes e eivadas de emoção, dada a paixão dos partidários envolvidos em cada lado. Todos as principais personagens da história recente do País dos Cedros se encontram presentes: os falangistas, Israel, os drusos, os muçulmanos (xiitas e sunitas), os palestinos, a Síria, a Jihad Islâmica, o Irã, o Hezbollah, a Amal, os maronitas, os sionistas, o clã Gemayel, Ariel Sharon, os homens-bomba que se imolam em nome do martírio divino, os EUA e seus desafortunados marines, a França, a Itália, as forças de paz da ONU, os campos de refugiados de Sabra e de Chatila, as batalhas pelo Vale do Bekaa, os sistemáticos bombardeios à Beirute…

Também estão presentes as histórias de sofrimento de milhares de famílias, sinônimos de martírios infinitos na busca de uma “verdadeira identidade” libanesa – perdida no mosaico de fenícios, romanos, árabes, cristãos, nacionalistas, palestinos, jihadistas… Acaba-se o livro com a impressão de que o Líbano, mais do que um conceito ou uma nação, é uma invenção por parte dos homens criada desde os tempos imemoriais – e que é reconfigurada a cada momento pelo deslocamento fugidio de interesses políticos pontuais , do frenético e trôpego construir/desconstruir de alianças estratégicas entre as diversas facções (clubes, famílias, clãs), da ingerência ingênua e messiânica de países estrangeiros, que se vêem como libertadores de uma terra ancestral sem, no entanto, se questionar sobre a legitimidade do seu mandato por parte dos que estão prestes a serem “libertados”… É uma história trágica e pungente, cujo principal ingrediente é a trágica miopia por parte dos envolvidos nesse denso processo…

A leitura de suas páginas leva o leitor para os horrores da guerra – a extensão da política por outros meios, como nos disse certa vez o general prussiano Clausewitz. Bombas de fósforo, ataques aéreos “cirúrgicos”, peças de artilharia posicionadas “estrategicamente” ao lado de alvos civis como escolas e hospitais, delações de ambos os lados, atentados suicidas a bomba, recrudescimento da bestialidade a partir da política do “olho por olho, dente por dente”… É preciso ter estômago para navegar nesse verdadeiro breviário da bestialidade humana… Não há melhor representação do inferno de Hieronymus Bosch como nos sangrentos conflitos, ocorridos durante os anos 1970-1980, que tomaram conta de Norte ao Sul do país.

Alguns críticos mais ferozes denunciam a sua postura como o resultado de um anti-semitismo cuidadosamente cultivado por décadas de contato com o mundo árabe. Em minha humilde opinião, acho um tanto quanto exagerada essa crítica. Acredito que sua postura está mais relacionada a um posicionamento radicalmente crítico em relação ao sionismo, dada a posição peculiar de Israel no Oriente Médio. Para Fisk, é óbvio, a questão judaica é infinitamente mais complexa do que regularmente nos oferecem as interpretações fundamentalistas de ambos os lados – cristãs, sionistas ou muçulmanas. Apesar do fato de alguns amigos meus judeus veementemente afirmarem que é impossível separar o princípio da existência do Estado de Israel da questão sionista, algo me diz que essa operação de identifação entre o povo judeu e esta tese é, além de reducionista e naturalizadora, extremamente perigosa e explosiva…

Apesar da existência de passagens no livro que nem sempre são didáticas – o que deixa perdido o leitor que não é familiarizado com as minúcias da luta política interna libanesa -, o texto oferece uma descrição dos lances mais dramáticos do entrechoque entre esses diferentes vetores políticos – internos e externos – que atuam no País do Cedros. Por ser, na grande maioria das vezes um correspondente de guerra, o autor relata de maneira minuciosa os impactos dos bombardeios na população civil – sem sombra de dúvida, a mais desamparada, desprotegida e afetada dramaticamente nessas situações específicas.

É também o relato de uma terra traiçoeira, que invita os seus invasores, encantados por suas belezas naturais e a tenacidade de seu povo, e depois os devora, tal como um Saturno ensandecido face às promessas ingênuas, distorcidas e não cumpridas de seus “salvadores”. Acenos nas sacadas das casas, regados a arroz e água de rosas se transmutam em dor e sofrimento… Por isso, os seus “hóspedes” frequentemente alegam que se trata de uma terra amaldiçoada… O Líbano, meus amigos, é para profissionais, e não para amadores…

No mês passado, por ocasião do I Seminário de Intercâmbio Brasil-Líbano realizado na UERJ, o Prof. Melhelm Chaoul iniciou a sua conferência afirmando que era extremamente difícil explicar para um libanês o que é o Líbano… Imaginem então, retrucou, o quão árduo é para um estrangeiro compreender esse país? O Líbano é uma esfinge que nos sorri, enigmática e altaneira, dos confins do Mar Mediterrâneo…

O Líbano não é apenas um desafio epistemológico para as Ciências Sociais… É um desafio para toda a humanidade, por se tratar de um país tão pequeno, cercado por vizinhos (e amigos) nem sempre tão cordiais, que insistem em tutorá-lo em direção à liberdade, sem, no entanto, compreender em toda a sua complexidade o caleidoscópio que é a sua própria sociedade…

Trata-se de um livro difícil, pois aborda eventos reais ocorridos em tempos difíceis – ou seja, em nosso tempo! Sua leitura é essencial não apenas por fornecer uma crítica robusta à opinião difundida e generalizada pela mídia de massa global – a de que o mundo é dicotômico e maniqueísta – que é aderente à tese huntingtoniana do “choque de civilizações”. É também um testemunho de que nem sempre o poderio militar maciço contribui favoravelmente em situações de conflito tipicamente assimétricas – tal como a maioria das guerras nos dias de hoje, que não são mais travadas entre Estados, mas envolvem grupos armados que utilizam táticas de guerrilha…

É a prova de que a insistência de um povo, habitante de uma nação fragilmente rascunhada em um suposto projeto de consenso entre facções sanguineamente divergentes, é a única esperança de que é possível sonhar com um futuro melhor…

Enquanto isso, os Cedros do Líbano continuam lá, postados nos cumes nevados. Soberbos, altivos, impávidos, resistentes e, sobretudo, pacientes… Foi da madeira dessas árvores imemoriais que foi erguido o Templo de Salomão. Elas foram testemunhas de invasões de hordas de legiões e exércitos estrangeiros… E, apesar de tudo, eles continuam a resistir às intempéries…

O Cedro é uma metáfora da liberdade de pensamento, da dignidade e da independência. É também um lembrete dos perigos de quem tenta, ingenuamente, manipulá-los ao sabor de seus próprios interesses. Contemplá-los no alto das montanhas é, de uma certa forma, um exercício de paciência e de humildade…

Abre, Ó Líbano, as tuas portas para que o fogo consuma os cedros. Gemei, faias, porque os cedros caíram, porque os mais excelentes são destruídos; gemei, ó carvalhos de Basã, porque o bosque forte é derribado. (Zacarias, 11: 1-2).
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  1. Anonymous
    setembro 15, 2007 às 10:09 am

    Belo e comovente libelo sobre o Líbano. Merece ser a introdução de uma tese.
    Parabéns pelos comentários!

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