Início > Cinema, Estrela Solitária, Wim Wenders > SESSÃO DE CINEMA- "ESTRELA SOLITÁRIA"

SESSÃO DE CINEMA- "ESTRELA SOLITÁRIA"

Fim de semana prolongado, domingão, sem internet… É nessas horas que a gente percebe como algo supérfluo se torna imprescindível… No meu caso específico, a internet… Como sou dependente de e-mails, blogs, googles, yahoos e orkuts da vida!!! Como estou num contencioso com a Net, resolvi aplacar a minha fúria assistindo uns filmes que há muito tempo gostaria de ver…

Como o leitor assíduo deste blog já percebeu, fui criado na cultura cinéfila do final dos anos 1980 – mais conhecida como a geração Estação Botafogo, por assim dizer. Logo, gosto de cinema de autoria. Dentre estes, alguns são os meus favoritos, tais como Fellini, Bergman, Greenaway, Cronemberg, David Lynch, Antonioni, Manoel de Oliveira e tantos outros que frequentaram – e ainda frequentam – a minha retina…

Vi neste fim de semana Estrela Solitária (Don’t Come Knockin’, 2005), penúltimo filme do cineasta alemão Wim Wenders – diga-se de passagem, resenhado algumas vezes aqui por esse Escriba. Não é um de seus melhores filmes, mas certamente um dos mais interessantes de sua produção mais recente – e certamente o mais reconhecível para quem conhece a sua obra com razoável intimidade…
Trata-se de um road movie ao melhor estilo do diretor, e o filme tem uma relação estreita com a sua obra-prima Paris, Texas. Todos os signos presentes a sua obra estão lá presentes: o cowboy junkie e auto-destrutivo, em uma história repleta de pessoas comuns com seus dramas corriqueiros, porém universais, o desencontro, a desilusão, a busca de um porto seguro e a tentativa das personagens em reconstruir a sua história, há muito perdida na deriva temporal de suas existências…
Acima de tudo, é a visão da América por parte de um apaixonado por ela… Apaixonado não pela superfície das imagens tal como nos letreiros de neon dos cassinos, mas por aquilo que está além da aparência. É uma América metafísica, árida, porém sem rodeios, que o cineasta nos passa sempre quando aborda esse tema.
A história é uma espécie de travelling existencial do ator decadente Howard Spencer (magistralmente interpretado pelo escritor norte-americano Sam Shepard, o gênio por trás dos contos e roteiros que inspiram os filmes de Wenders). Após um surto de auto-destrutividade, o cowboy sai enlouquecido à galope do set de filmagem na esperança de retomar o fio perdido de sua existência, rompido por uma vida repleta de excessos, álcool, drogas e instabilidade mental. O grande lance do filme não é apenas a figura durona e um tanto quanto inábil socialmente de Spencer mas como, ao mergulhar em sua própria história, ele paulatinamente vai reconstruindo a sua identidade – é claro, com muita angústia, sofrimento e vazio…
O filme é lindo, lento e angustiante, pois trata da história de retomar caminhos perdidos e de reatar laços desfeitos … A destrutividade dos personagens se associa ao vazio existencial e a perda da fé em si e nos outros. Todas as personagens estão em busca de algo que dê sentido as suas própria vidas: seja no trabalho, na família, na música, no jogo, no idolatrar os antepassados… Aliás, chama atenção a cena final, onde o investigador Sutter (interpretado pelo genial Tim Roth), faz um libelo a respeito da necessidade de se proteger das invasões do mundo externo, dado o caráter mesquinho, leviano, cruel e sedento de poder das pessoas… Um colírio para os olhos bem abertos de niilistas, cínicos e misantropos de plantão! Típico dos nossos tempos atuais repletos de fundamentalismos de todas os tipos, partes e matizes…
A América de Wenders está lá: a vastidão das paisagens contrastando com a fragilidade e a pequenez dos homens (as cenas iniciais do Grand Canyon são belíssimas), a cidadezinha do interior (aliás, para ele, a verdadeira America está não no litoral, mas no interior, no Heartland), os dramas comezinhos do cotidiano, a gentileza da mãe com seus biscotinhos de amendoim e o suco de laranja, os lunáticos falando com Deus, produto da insensatez do homem e da vida… A América como Terra Prometida, Land of Plenty – como no título de um de seus filmes -, com a sua bandeira tremulando no alto do mastro, incólume, testemunho da arrogância, da vaidade e do vazio humanos…
Aliás, algumas das cenas são verdadeiras obras de arte, retratos dos quadros de Edward Hopper, tamanha a capacidade de suas telas em retratar o imaginário coletivo que une a América urbana e a América do interior. Elas se encontram nos cafés, nos postos de gasolina perdidos na imensidão do deserto, nos restaurantes de madrugada, no vazio de seus habitantes…
Sem sombra de dúvida, é um belo filme para ser visto, ouvido, comentado e discutido… Existem filmes para serem vistos, e outros que nos fazem pensar. Wenders nos faz pensar sobre o vazio da existência humana, tendo como pano de fundo uma magistral experiência plástica e estética…
Anúncios
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: