Início > Brasil, Cinema Brasileiro, Marcelo Gomes, Nordeste > SESSÃO DE CINEMA – "CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS"

SESSÃO DE CINEMA – "CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS"

Tirei o fim de semana para descansar – e, com certeza, ler e ver alguns filmes que não consegui ver no cinema – aliás, um programinha cada vez mais chato para mim… Acabei assistindo em DVD o longa de estréia do diretor pernambucano Marcelo Gomes, o aclamadíssimo Cinema, Aspirinas e Urubus (2005). Apesar de documentarista, Gomes foi co-roteirista do também belo filme Madame Satã (2002), de Karin Aïnouz – que recentemente lançou o longa O Céu de Suely, que também já está na minha lista…

Não sou daqueles que acha que o Brasil não sabe fazer cinema; inclusive, gosto muito de alguns filmes produzidos no contexto do chamado renascimento do cinema nacional, lá pelos idos dos anos 1990…

O filme é baseado na história do tio-avô do diretor, Ranulpho, que ao fugir da seca e da miséria no sertão da Paraíba na década de 1940, se depara com um alemão, Johann – um misto de caixeiro-viajante e riponga gente boa -, que veio ser vendedor de aspirinas no interior do Brasil, tendo fugido de seu país antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial. A promessa de ir para a cidade grande alinhava temporariamente o destino desses dois homens, que saem pelo sertão afora em busca do sonho de uma vida melhor, no melhor estilo road-movie sertanejo…

Com uma temática dessas, torna-se inevitável a comparação com um dos maiores livros da literatura nacional: Os Sertões – obra mezzo sociológica, mezzo literária, mezzo jornalística que, a pretexto de descrever o cerco das tropas republicanas ao povoado de Canudos e de Antônio Conselheiro, descortina a vida e a psicologia do homem do interior nordestino, suas virtudes, suas fraquezas e suas mazelas. As imagens do filme servem de pano de fundo para a asserção clássica de Euclides da Cunha, por ocasião da descrição do sertanejo, funcionando como legendas de um filme-mudo que convidam o espectador a elaborar o seu intertexto particular… “O sertanejo é, antes de tudo, um forte. A sua aparência, entretanto, revela o contrário. É desengonçado, torto. Reflete a preguiça invencível. Basta o aparecimento de qualquer incidente transfigura-se, reponta, um titã acobreado e potente, de força e agilidade extraordinárias”.

Filmado em locações no sertão paraibano, a fotografia é esplendorosa, fazendo uma espécie de contraponto a uma estória um tanto o quanto inusitada – o encontro entre um alemão que vende aspirinas e se alimenta de comida enlatada da Bayer, com um jovem sertanejo reclamão, cabuloso, inquieto e disposto a superar a sua eterna condição de pobre, sem eira nem beira… O sorriso generoso do estrangeiro contrasta com a desconfiança e a esperteza do homem do campo, acostumado as intempéries do clima e as injustiças do mundo dos homens. A relação entre ambos é surpreendentemente complexa, intrigante e fraterna.

O filme é delicado, poético, repleto de silêncios, e angaria a simpatia do espectador conforme o seu andamento, principalmente pelo caráter singelo da trama. A beleza fulgurante das imensidão do Sertão contrasta com a figura de seus habitantes, cujo rosto vincado e humor inocente denota um povo abandonado a própria sorte.

A trilha sonora é caso à parte! É um passeio a época gloriosa do rádio brasileiro, com músicas de Francisco Alves e de Carmem Miranda, cujas vozes embalaram muitos sonhos e namoros da geração dos meus pais, quando o Brasil ainda era um imenso quintal…

O filme é um típico representante do chamado árido movie – alcunha criada a partir do inovador Baile Perfumado (1997), dirigido pelos pernambucanos Paulo Caldas e Lírio Ferreira. Outro representante dessa tendência estética é o belíssimo Abril Despedaçado (2001), adaptação do romance homônimo do escritor albanês Ismail Kadaré, realizada pelo nosso maior cineasta vivo – pelo menos, na humilde opinião desse Escriba -, o brilhante Walter Salles Jr.

A fotografia, amarelada e densa tal como a paleta de cores presente na caatinga, contrasta com a humanidade e a solidariedade dos personagens. O mais legal de tudo é que o filme é despretensioso. Em nenhum momento o diretor pretende contar uma história-cabeça, ou realizar O Filme. Não existem arroubos histriônicos, diálogos pseudo-filosóficos ou divagações vazias e sem sentido. Pelo contrário, trata-se de um filme simples, direto e reto, assim como são as questões mais áridas e complexas. Complexidade e simplicidade andam juntas nessa película.

Para mim, é uma jóia no meio do nada, uma flor perdida que cresce – hirta e bela – na imensidão do deserto. É um filme que vale a pena ser visto, por despertar a humanidade dentro de nós, que a cada dia que passa anda meio perdida…
Anúncios
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: