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SESSÃO DE CINEMA – "O BOM PASTOR"

Além de ser um grande ator, Robert de Niro também vem se mostrando um grande diretor. Seu segundo longa-metragem, O Bom Pastor (The Good Shepherd, 2006), é um ótimo filme sobre a gênese do serviço de informação norte-americano. Longo, tenso, denso e carregado de dramaticidade, o filme é uma tour de force de fôlego sobre as desventuras de um personagem que, como o Ulisses de Homero e de James Joyce, é obrigado a conviver com um estilo de vida com o qual não teve escolha. A trama é tão densa que é preciso uma atenção redobrada para acompanhá-la do início ao fim, dada a complexidade do jogo de idas e vindas do trânsito da informação e da contra-informação. É um belo thriller psicológico de espionagem, um prato cheio para nerds, paranóicos e conspiradores de plantão que acreditam firmemente na crença de que a gênese do mundo repousa na miséria, na desconfiança e na traição…

O filme conta com um elenco estelar – William Hurt, Angelina Jolie, Joe Pesci, Alec Baldwin, John Turturro. Mas, sem dúvida alguma, o grande nome do filme é Matt Damon, no papel de Edward Wilson, um jovem membro da elite ianque que, ao ser introduzido em sua juventude na sociedade secreta Skull and Bones, torna-se ator e testemunha principal do surgimento do aparato de espionagem americano. Já vi vários filmes com ele – por exemplo, O Ultimato Bourne (2006), Os Infiltrados (2006), Syriana (2005), A Identidade Bourne (2002), Gênio Indomável (1997) -, e a cada filme me surpreendo com a sua flexibilidade e capacidade de compor vários personagens diferentes entre si.

É um filme de espionagem diferente dos que estamos acostumados a ver, apesar de todos os elementos intrínsecos a uma trama desse tipo estarem presentes – frieza, traição, senhas, códigos secretos, distanciamento, paranóia… A história do menino que abandona tudo em prol da defesa dos interesses do seu país, aliada a tentativa de resgatar o nome da família manchada pela fraqueza paterna, a abdicação dos interesses pessoais, a lealdade aos seus pares anda em paralelo à deterioração psicológica e emocional, dando lugar a um sentimento de desconfiança crescente como forma de defesa diante das traições que ocorrem ao sabor do fluxo de informações traficadas.

O filme também é didático no sentido de lançar uma luz sobre o senso de paranóia norte-americano, que proporcionou o surgimento do aparelho governamental de informação, desde os seus primórdios com a OSS na Segunda Guerra Mundial, até os choques entre a CIA e a KGB na gênese dos conflitos “controlados” da Guerra Fria – a mal-fadada invasão da Baía dos Porcos, a desestabilização de regimes políticos na América Latina e na África, dentre outros episódios…

Uma cena do filme resume o espírito da trama, posto proporcionar uma compreensão mais aprofundada da opinião da elite norte-americana em relação ao restante do mundo… Ao abordar um cappo italiano em sua casa na Flórida, o mafioso pergunta a Edward – “Nós italianos temos a nossa família e a nossa Igreja, os judeus têm a sua tradição, os irlandeses têm a sua terra, até os negros têm a sua música. E o povo de vocês, Sr. Edward, o que vocês têm?”… A resposta vem rápida e seca – “Nós temos os Estados Unidos da América. E o resto de vocês são só visitantes”. …
Precisa mais? Melhor do que isso, só vendo o filme… Ajuda a compreender o fundamentalismo cristão, a Guerra do Vietnã, os movimentos suprematistas raciais, a Guerra do Iraque, o Choque de Civilizações, os neo-realistas, a guerra contra o terrorismo…
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