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BEM-VINDO AO MUNDO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR COMO NEGÓCIO…

Está feia a coisa no reino do Professorado – em especial, dos profissionais que trabalham na educação superior privada… Demissões, redução generalizada da carga horária, turmas cada vez mais cheias – com alunos cada vez menos preparados -, gestores que não estão nem aí para a vida dos professores… Bem-vindos ao mundo do ensino particular visto como um negócio!

Na semana passada, o periódico O Estado de S. Paulo publicou uma matéria sobre a progressiva deterioração das condições de trabalho do corpo docente nas universidades privadas brasileiras. Nenhuma novidade para quem – como esse Escriba – militou (e milita, se ainda deixarem!) durante muito tempo neste ramo…

Eis o cenário atual de pesadelo:

1. Atrasos salariais: já virou lugar comum as mantenedoras das universidades privadas desrespeitarem direitos concedidos pela legislação trabalhista em vigor, tais como atraso de salários, parcelamento do 13o. em mais de 10 vezes – tal como nas Casas Bahia -, não depósito de FGTS, INSS e Imposto de Renda – apesar de aparecer lá, descontadinho em seu contracheque… Este mesmo Escriba já trabalhou em uma universidade onde o 13o. foi parcelado em mais de 14 vezes !!! Difícil foi propor para o gerente do banco, ou então para a administradora do cartão de crédito, uma negociação de redução da taxa de juros, uma vez que os salários estavam atrasados… Pior do que isso é no momento da dispensa, quando o idiota vai acertar a sua rescisão de contrato, e descobre que há anos que a mantenedora não deposita os seus direitos!

2. Demissão dos mais antigos, contratação de mais novos: é a velha máxima capitalista de buscar o lucro máximo com a menor despesa possível… Os caras justificam isso dizendo que a inadimplência do alunato é alta, os acordos sindicais são draconianos, professores qualificados custam mais caro para o empregador… Enquanto isso, gerações inteiras das famílias do fundadores se penduram na Reitoria, retirando suas “ajudas de custo” cada vez maiores pois comungam de um estilo de vida parasitário e perdulário, às custas dos palhaços em sala de aula que aguentam as “estripulias” dos gestores – tudo em prol de uma desesperada “redução nos gastos”!

Essas instituições são semelhantes ao nosso país – sócias no lucro, mas que não são parceiras no prejuízo… Enquanto isso, professores qualificados, com ampla experiência docente e dedicados são demitidos, abrindo vagas para Mestres e Doutores recém-formados, jogados aos borbotões no mercado…

3. Precarização dos vínculos empregatícios: tornou-se uma praxe nas instituições privadas de ensino superior a contratação de docentes sem carteira assinada, à revelia da lei trabalhista vigente em nosso país. Qualquer um que é ou foi professor sabe bem o que eu estou falando… Aí, surgem as invencionices: fundações, cooperativas de ensino, empresas de prestação de serviços… uma festa com ingredientes tipicamente brasileiros: descaso para com o próximo, desobediência à lei e perversidade.

4. Uso desenfreado de aulas no formato semi-presencial: esse é um dos pontos mais polêmicos da questão. Muitas universidades aproveitam a brecha da lei – segundo o Ministério da Educação, 20% da carga horária de um curso presencial pode ser ofertada à distância – para “enxugar” a grade curricular dos cursos, rebaixar a carga horária dos docentes, diminuir a qualidade da prestação de serviço, e contratar profissionais mais baratos – criando a figura do “tutor” dos cursos à distância…

Aqui, vale um esclarecimento. Como trabalho com Educação à Distância (EaD) na UERJ, acredito que esta modalidade de ensino não veio substituir o ensino presencial, mas sim complementá-lo em casos onde são grandes as assimetrias de mercado. Explico: em regiões pobres, afastadas dos grandes centros urbanos, onde há pouca oferta de educação superior, a EaD é uma alternativa bastante atraente a ser considerada…

Daí a usar a EaD como forma de corte de custos implica em um enorme equívoco… A EaD, a experiência nos mostra, é eficaz quando é sustentada por um proposta pedagógica consistente, aliada a um material didático de qualidade especialmente desenhado para essa situação – e não uma mera transposição de textos utilizados na sala de aula -, além de um ambiente virtual de aprendizagem e recursos tecnológicos dinâmicos, atraentes com interfaces ao usuário amigáveis que fomentem a interatividade e a maior participação do aluno. Tudo isso, é claro, conjugado a um corpo de professores e coordenadores de altíssima qualidade…

Digo isto, pois esses são os parâmetros que dirigem a minha ação docente na UERJ, a despeito de todas as dificuldades existentes na educação superior pública – e que, dada a sua complexidade, merecem um post em um outro momento que não este…

Claro que a perda do padrão de vida do professor do ensino superior é resultante de condições estruturais mais amplas intrínsecas à própria transformação da sociedade brasileira nas últimas decadas – tais como a crise na educação brasileira, a perda do poder aquisitivo da classe média, a expansão desenfreada da rede privada de ensino superior e a adoção de estratégias predatórias de mercado por parte destas…

Porém, este quadro é agravado pela irresponsabilidade gerencial de algumas instituições, que atrasam os salários dos professores (existem casos de até 4 meses de atraso!) sem deixar de investir em marketing… Sem falar na continuação do estilo de vida extravagante e irresponsável dos parasitas atrelados às famílias fundadoras do negócio…

Por seu turno, esses encaram os professores como pura despesa, e não um investimento, pois compartilham de uma visão tacanha e estreita do seu próprio negócio – aliás, muitos deles nem sabem o que é educação, quanto mais gerenciá-la como um verdadeiro negócio. Estes se esquecem que é o professor que, em grande parte, retém o aluno em sala de aula, e não apenas o pacote de serviços agregado. Por ser um investimento de médio e longo prazo, muitos pais desejam uma educação de qualidade para os seus filhos, e essas oportunidades vêm sendo desperdiçadas por uma verdadeira miopia de marketing…

No entanto, tudo isso se torna irrelevante quando vejo colegas meus relatarem histórias escabrosas que envolvem dificuldades financeiras, cognitivas e emocionais, que acabam por gerar os mais variados quadros de transtornos psicológicos – depressões, doenças do pânico, fobias, surtos e descompensações emocionais…

Deste lúgubre quadro, surge uma pergunta que não quer calar: ainda existe alguém disposto a seguir o calvário de ser professor?
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