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SESSÃO DE CINEMA – "FAIXA DE AREIA"

Sábado de sol, garantia de final de semana esplendoroso para os habitantes da Cidade Maravilhosa. As condições climáticas interferem diretamente no programa de lazer do carioca: no frio e na chuva, a preferência é pegar um cineminha, e depois sair com os amigos para bebericar uma garrafa de vinho e botar a conversa em dia – isso, se as balas perdidas deixarem… Agora, se abrir um sol como hoje, a dinâmica muda rapidamente: todo o Rio acorre para as praias para caminhar, correr, tomar um banho de mar, pegar um bronze, beber um chopinho com os amigos, olhar o movimento… Enfim, se um turista quiser entender a cultura carioca, ele precisa mergulhar – literal e simbolicamente – nas praias do Rio de Janeiro.

Essa é a proposta do documentário Faixa de Areia – Um filme sobre as praias do Rio (2006), dirigido por Daniela Kallmann e Flavia Lins e Silva. Trata-se de um estudo antropológico sobre o comportamento dos cariocas à beira-mar, suas semelhanças e diferenças, tendo como cenário as diferentes praias da cidade. A escolha é democrática – tem Copacabana, Ipanema, Leblon, São Conrado, Barra da Tijuca, Prainha, Grumari, Barra de Guaratiba, Flamengo, Urca, Praia Vermelha, Piscinão de Ramos -, já que o mote é captar o comportamento dos seus frequentadores, mapeando suas diferenças e idiossincrasias…

Por ser um documentário, a câmera procura um olhar mais descritivo e menos interpretativo sobre as imagens captadas. O argumento do filme se desenrola com base nos depoimentos dos frequentadores, captados na faixa de areia dessas praias. O universo dos entrevistados é o mais eclético possível: têm suburbanos remediados, mauricinhos, patricinhas, idosos, negros, brancos, mulatos, ricos, pobres, gays, travestis, lésbicas, garotas de programa, ambulantes, enfim toda a gama de integrantes dessa população flutuante que acorre às praias do Rio de Janeiro todo o final de semana…
O Rio de Janeiro possui uma cultura sui generis, dada a convivência de seus habitantes com a praia – verdadeiras ágoras, por serem locais de entrecruzamento e de convivênvica por parte de diferentes classes sociais. Por exemplo, uma caminhada no calçadão de Copacabana permite ao andarilho travar contato com pessoas de diferentes segmentos sociais, faixas de renda, graus de escolaridade, hábitos e costumes. Em cidades como São Paulo, onde a segregação entre as diferentes classes sociais é maior dada a própria geografia da cidade, esse fenômeno ocorre de maneira muito menos intensa – exceto nas praças, nos faróis das grandes avenidas e nos estádios de futebol…. Para muitos, a praia é um local verdadeiramente democrático, onde as mais variadas pessoas convivem sem serem incomodadas. As praias da cidade, dessa forma, seriam a expressão máxima de alguns dos mitos mais arraigados no imaginário nacional – os mitos da democracia racial e da cordialidade do povo brasileiro…
No entanto, sabemos que isso não funciona dessa maneira. Cordialidade e democracia racial são mitos, construções imaginárias engendradas para dar uma certa estabilidade social e controle das tensões sociais, mas que não se sustentam após uma hora de conversa com os cariocas… E isso aparece explicitamente no relato dos banhistas, especialmente os da Zona Sul, que afirmam desconhecer a cidade ao redor da faixa de areia – leia-se a Zona Norte, região do subúrbio carioca. Para os frequentadores das praias do Leblon, Ipanema e Copacabana – que,diga-se de passagem, acham que a cidade inteira se resume a Zona Sul -, os moradores do subúrbio são mal-educados, barulhentos, arruaceiros, bárbaros, dado não possuírem valores solidamente constituídos… A prova disso é que estes chegam aos montes em ônibus que despejam uma turba de gente que fala alto, joga areia uns nos outros, faz “churrasquinho de gato”, monta uma roda de pagode, canta os “proibidões” do funk, com suas coreografias inadequadas e pornográficas… Enfim, o contato com a alteridade e com o outro, que ocorre na faixa de areia, é tenso, complexo e paradoxal, uma vez que expõe as fraturas intrínsecas ao nosso processo civilizatório, como diria Norbert Elias.
A maior evidência desse apartheid é a divisão da faixa de areia por tribos, especialmente na praia de Ipanema. O Arpoador é frequentado maciçamente por suburbanos e moradores da Baixada Fluminense, que são despejados todo o final de semana por ônibus lotados que ligam a região ao restante da cidade. O point em frente a Rua Farme de Amoedo é um tradicional reduto para gays abastados e turistas estrangeiros, que buscam algum tipo de diversão com parceiros do mesmo sexo.
(O curioso é que, no próprio documentário, travestis pobres não frequentam essa região, preferindo estar na praia da Alvorada, na Barra da Tijuca, a poucos quilômetros do terminal de ônibus).
Já os mauricinhos e patricinhas – no dialeto carioca, filhos da elite abastada da Zona Sul, que volta e meia vivem brigando em boates e esborrachando os seus carros em postes – frequentam uma faixa exclusiva de areia, localizada entre o posto 10 e o Country Club. Os intelectuais avant-garde, moderninhos, descolados, neohippies e a turma do “fumacê”, por seu turno, frequentam o mitológico Posto 9 – bastião de resistência carioca à ditadura militar e point da contra-cultura da cidade.
A discriminação operada pelas elites é percebida claramente pelos frequentadores da Zona Norte, que internalizaram de maneira eficaz – e dócil – as divisões sociais existentes na areia. A grande maioria dos depoentes afirma clichês do tipo “há espaço para todos na praia”, “todos convivem numa boa no mesmo espaço”, “cada um na sua e ninguém se mete”, mas o próprio posicionamento dos mais pobres é um exemplo prático da disciplina sobre os corpos que tanto nos fala Michel Foucault – e que emerge no discurso dos falantes… A maior prova disso é o Piscinão de Ramos, localizado na outrora e famosa Praia de Ramos – um enclave de águas calmas no esgoto que hoje se tornou a Baía de Guanabra -, que foi revitalizado pelo Governo do Estado passado, tornando-se um local de afluência de moradores daquela região. Além das tradicionais elegias aos prazeres da vida no subúrbio, a preferência pela região está claramente ligada a busca de uma identidade cultural comum – além de que os seus frequentadores não estão dispostos a arcar com os elevados custos físicos e psíquicos embutidos no deslocamento até a Zona Sul…
Locais de convivência e de coexistência, de segregação e de apartheid, é na faixa de areia de nossas praias que as virtudes, contradições e impasses dos cariocas se manifestam de maneira tão eloquente. Não é à toa que o filme começa justamente na Praia de São Conrado, local onde o IPTU mais alto da cidade se encontra com a Favela da Rocinha – a maior da América Latina…
A trilha sonora, que vai do samba grooveado do Pedro Luís – do grupo Pedro Luís e a Parede –, passando pelo pagode rasgado e repleto de ironias do Dicró, até o funk e o samba cantado pelos frequentadores da praia é bastante interessante, refletindo a diversidade de tipos físicos, matizes, hábitos, cores, sons, opiniões e orientações sexuais que estão presentes nas praias da cidade…
Para quem quiser entender a cidade e os seus habitantes, o filme é uma bela introdução…
Para mais informações, basta acessar o site (www.dpkprod.com.br/faixadeareia/)… E não se esqueçam do protetor solar, pois o final de semana promete….
Vai um mate e um biscoito Globo aí, chefia?
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