Início > Globalização, Identidade Cultural, Indústria Musical, Putumayo, Tendências de Consumo, World Music > MARKETING ÉTNICO: O CASO DA PUTUMAYO WORLD MUSIC

MARKETING ÉTNICO: O CASO DA PUTUMAYO WORLD MUSIC

Para mim, sempre é tempo de experimentações musicais, de conhecer novos ritmos, de travar contato com novos horizontes sonoros… Para quem anda entediado com o encapsulamento cultural em que vivemos nessa sociedade de blockbusters e sitcons, uma boa dose de alteridade faz bem para o corpo – e para a mente… Aliás, essa alteridade nos dias de hoje é um senhor produto para quem busca novidades e experiências culturais marcantes. A globalização, ao mesmo tempo que impele a criação de uma cultura de consumo homogeneizante via mídia de massa global, proporciona um impulso em direção à diversidade de formas de vida. E a música é uma das principais formas de contato entre o dito já estabelecido e a novidade, posto ser uma manifestação cultural que atinge a todos os povos, etnias, gêneros e faixas etárias. A música é, sem sombra de dúvida, uma das janelas para outros estilos de se viver e de narrar as histórias de cada povo, sendo um dos elementos fundamentais no estabelecimento de marcações definidoras da identidade cultural de um determinado grupo de indivíduos. A música é sempre uma ponte entre vários mundos – do ouvinte, do músico e do seu framework econômico, político, social e cultural…

A música também possibilita a integração de diferentes povos, gerando intertextos que podem gerar novas fusões – e novos estilos – musicais. Por isso que o marketing étnico é um dos grandes negócios do momento, dada a possibilidade de prover a consumidores ávidos por novidades experiências musicais inovadoras, ligadas à da cultura popular, sem perder o verniz de sofisticação e requinte. O Ocidente precisa constantemente ver o outro para se reconfigurar e ressignificar a sua própria identidade, tal como num espelho onde vemos a nossa imagem refletida, nos permitindo observar melhor nossas virtudes, falhas e inconsistências…

Evidentemente, que o público-alvo do marketing étnico se caracteriza por um nicho muito específico de mercado, composto em sua grande maioria por uma clientela intelectualizada, internacionalizada, antenada com o que se passa no mundo em termos de tendências culturais, de elevado poder aquisitivo, que abraça o multiculturalismo e as manifestações étnicas como profissão de fé, portadores de um senso de pertença e coletividade globais, bastante engajada e ativa politicamente e que aproveita ao máximo as oportunidades que a globalização lhe oferece – especialmente, quando se trata do consumo de bens simbólicos… Esses consumidores são rotulados de cultural creatives (criativos culturais), estimando-se o tamanho desse target em cerca de 50 milhões de pessoas só nos EUA, fora outros tantos milhões espalhados no mundo inteiro.
Várias empresas surgem para suprir essa demanda, e uma das que mais cresce no mundo inteiro é a gravadora Putumayo Wold Music, cuja missão é a de oferecer um amplo leque de produtos musicais, que propiciem aos ouvintes uma viagem ao redor do mundo da música popular que é produzida nos quatro cantos do globo. Fundada em 1993 pelos norte-americanos Dan Storper e Michael Kraus – a partir de uma grife de roupas do mesmo nome criada em 1975 -, seu principal objetivo é o de oferecer ao mercado uma introdução à música popular concebida em diversos países e por diferentes grupos étnicos. Em resumo, apropriado-se de um jargão da indústria musical, o que a Putamayo oferece é world music de altíssima qualidade! É diversão garantida!
A sua marca faz referência a um rio na região amazônica que nasce na Colômbia, passa pela fronteira do Peru e do Equador, e desagua no rio Amazonas – já em território brasileiro. Seus primeiros discos foram de coletâneas de músicas de diversas partes do mundo, organizadas por estilos, regiões geográficas ou identidades culturais compartilhadas. Os títulos de seus discos falam por si só: Afro-Latino, Music From the Tealands, Blues Around the World, Celtic Crossroads, Sahara Lounge… A proposta da empresa é caracterizada pelo uso de etnomusicólogos que servem como consultores na tarefa de identificar artistas a serem contratados, organizar o repertório, e estruturar um produto segundo traços que garantem o selo de garantia da empresa – a sua identidade de marca.
Além das pesquisas musicais, outra marca registrada do selo é o esmero, o bom gosto e a plasticidade do projeto gráfico dos CDs, cujas capas vibrantes são feitas pela artista plástica britânica Nicola Heindl. Os motivos étnicos e o colorido vívido estão inteiramente alinhados com o posicionamento da companhia, como fornecedora de uma experiência musical étnica e exótica ao ouvinte. O esmero nos pequenos detalhes, com encartes luxuosos repletos de informações técnicas sobre os artistas e as faixas ajuda na imersão do ouvinte na experiência musical, auxiliando na produção de significados inerentes à experiência de fruição das obras. Tudo isso contribui para a construção de uma marca sólida, atraente, cool, charmosa e politicamente engajada – posto que uma parte dos lucros obtidos com a venda dos CDs é revertida para projetos sociais e humanitários nos países nos quais os músicos são provenientes ou possuem fortes ligações étnicas. Trata-se de um belo caso de marketing étnico, e o lema da empresa é extremamente feliz nesse sentido: ele promete guaranteed to make you feel good!
A distribuição e comercialização dos seus produtos também é um caso à parte. Além da forte presença de seus CDs em lojas-âncoras do ramo, a Putumayo criou uma rede própria de lojas que opera um mix de produtos que abrange, além dos CDs, livros, cafeteria, presentes e vestuário de diferentes regiões do mundo, além de realizar nesses pontos de venda eventos culturais, musicais, humanitários e gastronômicos. Além disso, a empresa foi a pioneira na venda de CDs em espaços não-tradicionais – tais como lojas de roupas, cafeterias, lojas de presentes, museus, livrarias, restaurantes de alimentação saudável, centros culturais.
No Brasil, os CDs da Putumayo são encontrados nas principais lojas do ramo e cadeias varejistas, além de museus, livrarias e centros culturais. Nestes, destaca-se todo o trabalho de merchadising visual feito no ponto-de-venda – quiosques de audição dos CDs, displays de venda e banners com a relação dos produtos da gravadora. Para quem é do ramo de marketing como esse Escriba, observa-se claramente que o approach de mercado feito pela gravadora é altamente profissional. É tudo isso – menos coisa de amador ou de desavisado…
O posicionamento da marca é claramente focado no estilo de vida desses cross-cultural consumers – a empresa adota um critério psicográfico ao segmentar os consumidores da indústria musical. O crescimento da companhia é vertiginoso, e atualmente seus CDs chegam praticamente aos quatro cantos do mundo, coordenados por 12 escritórios espalhados ao redor do globo…

Para o futuro, os planos de expansão da empresa vão de vento em popa. Além de abrir um novo selo denominado Cumbancha – direcionado para o lançamento de álbuns solos de artistas étnicos extra-classe – Storper almeja também expandir os seus negócios para os ramos de DVD, edição de livros e programas de televisão.
Para quem quiser saber um pouco mais dessa bela e criativa proposta de negócio, basta acessar os sites da Putumayo (http://www.putumayo.com/) e da Cumbancha (http://www.cumbancha.com/).
Anúncios
  1. Jorge Jreissati
    agosto 26, 2007 às 8:57 pm

    Caro José Mauro. Primeiro, obrigado por sua mais recente mensagem no meu blog. Aos poucos estamos formando a rede de que falo lá. E acredito que o crescimento dessa rede será em ritmo de progressão geométrica (tomara!). E parabéns por essa sua postagem sobre a Putumayo. Realmente, eles fazem um trabalho fabuloso que, de outra forma, tornaria muito mais difícil o acesso a produções que não tenham o aval das ‘majors’ da indústria fonográfica. Na falta de um intercâmbio que contorne o rótulo genérico de World Music, iniciativas como as da Putumayo suprem, e muito bem, esse nicho do mercado. Mais uma vez parabéns.

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: