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SOCIEDADE INDIANA: CASTAS E MOBILIDADE SOCIAL

Ultimamente, esse Escriba vem se dedicando muito ao tema da identidade cultural e a problemática das diferenças entre as sociedades ocidentais e outras organizações sociais… Oriente Médio, Extremo Oriente, África e Oceania são alguns exemplos de minhas atuais pesquisas, e é extremamente interessante estabelecer pontos de convergência e de afastamento entre essas diversas realidades sociais. Tento, com isso, evitar cair em reducionismos e simplificações – o que, digamos, é bastante comum em análises desse tipo… É o mal do etnocentrismo, diriam os meus amigos antropólogos. Lidar com a alteridade é sempre tentador, porém perigoso e às vezes até mesmo perturbador…

Assim como o Oriente é um mosaico de etnias, religiões e costumes, o Ocidente também é bastante fragmentado… No entanto, uma certa unidade pode ser identificada nas sociedades ocidentais que, no entender de cientistas sociais como Louis Dumont e Steven Lukes, gira em torno do ideário individualista, identificado a partir das seguintes crenças: o princípio da livre iniciativa, a liberdade de expressão, os ideais democráticos como organizadores das fomas de representação política, o individualismo, o livre-arbítrio e a crença no consumo como via de inserção e de ascensão na sociedade.


A Índia é um belo país, dada a riqueza de suas tradições religiosas e culturais, suas belezas naturais, bem como a sua diversidade social, o que torna o país um dos mais desiguais do mundo – tal como, aqui na Terra Brasilis, bem ao sul da linha do Equador… Riqueza e pobreza, sofisticação e atraso andam de braços dados em uma nação repleta de desafios em sua agenda para o milênio. Dada a sua grandeza territorial e populacional, a Índia é alcunhada – segundo o jargão das Relações Internacionais – como um dos integrantes do grupos dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China), dado o acúmulo de capital financeiro emergente e a elevada disponibilidade de capital intelectual em função da sólida educação no país, que torna o país uma peça importante no tabuleiro de gamão das Relações Internacionais…

No entanto, apesar dessas perspectivas positivas, a Índia é um país de cultura milenar, e o peso do hinduísmo é decisivo na estrutura de sua sociedade. Principios religiosos determinam a organização social, e o sistema de castas é a faceta mais visível dessa influência. Atualmente, o país possui mais de 2 mil castas e cerca de 20 mil subcastas, cujos critérios de definição remontam aos primórdios do surgimento da religião hindu.


No domingo passado, o Estadão publicou uma matéria interessante em seu primeiro caderno sobre as castas e os meios de subversão desse sistema, a partir do empreendimento pessoal e do acúmulo de capital financeiro.

A origem das castas encontra-se ligada à mitologia religiosa hindu, por ocasião do sacrifício da entidade espiritual Purusha. As castas, dessa maneira, estariam ligadas às diferentes partes do corpo da entidade após o seu sacrifício, estando assim distribuídas: da cabeça veio a casta mais elevada, os brâmanes, composta por sacerdotes ligados à funções intelectuais de prestígio e ao ensino universitário; dos braços, os kshatriya, nobres que exercem funções políticas e militares; das pernas, os vaishyas, representados pelos camponeses, artesãos, donos de terra e comerciantes; dos pés, situados na parte mais baixa do sistema, os shudras, integrados por servos, trabalhadores braçais e agricultores.

Além das quatro castas principais, há um segmento social à parte – os chamados intocáveis ou párias. Por não pertencerem a qualquer casta – por isso, também são conhecidos como os “sem-casta” -, são vistos como “impuros”, e exercem funções sociais menores e desprestigiosas tais como lavar roupa, recolher o lixo e lavar banheiros. Estrangeiros e imigrantes de outros países também são classificados nesse segmento. A posição dos párias é a mais complicada de todas, dado não estarem inseridos no sistema, o que os torna extremamente vulneráveis em uma sociedade hierarquizada e estabilizada desse tipo…


As castas obedecem um sistema rígido de organização social, onde as posições mais elevadas em termos de prestígio político e social são ocupadas por membros das castas mais elevadas. Em contrapartida, integrantes de castas inferiores possuem severas restrições ao movimento, a alimentação, a educação e acesso à religião. Em lugares públicos, membros de castas inferiores frequentemente cedem seus lugares para membros de castas mais elevadas.

Existem várias maneiras de se identificar a casta de uma pessoa, sendo a mais comum a identificação pelo sobrenome. Porém, outros critérios podem ser utilizados em função da região geográfica, indumentária, dialetos falados ou até mesmo pela própria dieta da pessoa.


Para os ocidentais, cujo sistema social é determinado pela livre iniciativa e não por laços de parentesco, uma organização social dessas soa um tanto o quanto exótica, quando não peculiar e até mesmo ultrajante. Vários antropólogos como Louis Dumont e Clifford Geertz se dedicaram a estudar de maneira mais aprofundada a sociedade hindu, a fim de entender a complexa relação entre esses segmentos, bem como as estreitas possibilidades de ascensão social. Fica bastante claro que a ascensão social de indivíduos de castas mais baixas é inconcebível nesse tipo de organização social, mesmo que porventura esses venham a ser bem-sucedidos do ponto de vista do empreendimento de negócios financeiramente rentáveis…

No entanto, o poder do dinheiro subverte qualquer organização social estável. A globalização, o crescimento econômico do país e a elevada educação dos seus cidadãos lança desafios cada vez maiores a esse sistema. Tornam-se cada vez mais frequentes histórias de membros de castas inferiores como Hari Pippal, empresário indiano bem-sucedido, integrante do segmento dos párias ou dos “sem-casta”…


Proveniente de uma família humilde, Pippal investiu bastante em educação, acumulou capital e empreendeu negócios diversos, e atualmente é um caso típico do que nós chamaríamos de um nouveau riche ou “emergente”: é dono de uma revendedora de carros Honda, uma empresa exportadora, uma fábrica de sapatos e do Heritage Hospital, considerado uma unidade hospitalar de referência na cidade de Agra – onde está localizado o palácio do Taj Mahal. Sua fortuna pessoal é calculada em cerca de US$ 4 milhões – pouco para um bilionário norte-americano, mas muito para um indivíduo situado à parte da sociedade…

Ganhar dinheiro e abrir negócios é uma das formas de subverter esse sistema – porém não é a única… Outra maneira se dá pela via religiosa. O budismo é extremamente popular no país, especialmente entre os indivíduos de castas mais baixas, sendo atualmente uma das religiões que apresenta as maiores taxas de crescimento no país. A explicação dessa conversão em massa está no fato de que o budismo não acredita em divisões na sociedade, e sua mensagem de igualdade, fraternidade e respeito entre as pessoas é uma forma de questionamento e escape da segregação imposta pelo sistema de castas.

Mesmo assim, o fim do sistema de castas está ainda longe de ocorrer, apesar de a própria Constituição do país ter abolido esses sistema há mais de 50 anos atrás. O peso da tradição, a força da religião hindu e a estabilidade social proporcionada por essa divisão ainda são os sustentáculos desta forma peculiar de organização e estratificação socal…

Como se pode ver, a força do dinheiro é tamanha que pode romper com divisões sociais até então consideradas “intocáveis”… Mais uma prova de que a globalização econômica impele à civilização humana a rumos até então considerados inconcebíveis e a navegar por mares nunca antes navegados, como diria o bardo lusitano Luís de Camões…
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  1. debynha
    dezembro 10, 2008 às 1:32 pm

    e isoo msm!!!
    brigadooo

  2. Quintino Lopes tavares
    janeiro 8, 2009 às 6:09 pm

    eu desejo estudar na india
    gost muito da quela país

  3. Elane
    fevereiro 3, 2009 às 8:10 pm

    Gostei muuito do seu post-it,pois era exatamnete sobre isso q estava preocurando….
    Att.
    Elane

  4. MATEUS
    junho 18, 2009 às 7:37 pm

    MUITO BOM

  5. roberta
    agosto 16, 2009 às 11:12 pm

    oi tudo bom

  6. outubro 15, 2009 às 7:13 pm

    mt bom aqui tem td o que eu presisava

  7. Giovanna
    novembro 8, 2009 às 10:19 pm

    Achei ótimo o artigo,nos possibilita conhecer um mundo de diversidade social e com isso agradecer a DEUS por morar num país onde podemos nos relacionar com todos sem ter uma casta para nos rotular,mas o que nos limita são algumas pessoas que se julgam melhores do que as outras por terem o dinheiro,e talves o único companheiro que pode contar.

  8. janeiro 6, 2010 às 8:24 pm

    gostaria de saber mais

  9. junho 16, 2010 às 5:06 pm

    e muito legal o site!
    agente aprende, as vezes até ri de algumas palavras! como:nomes de deus por exemplo:kushana é o nome de um deus que tem na india!!
    mas en fim e muito bom agente aprende riietc…
    so que e rui agente ter que copiar tanta coisa para um trabalho de historia kkkk
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk…..
    obrigada por ler meu comentario””’

  10. Raiane
    setembro 9, 2010 às 12:27 pm

    Gostei bastante deste artigo e gostaria de ter mais informações vindas dele.Parabéns pelo trabalho.

  11. Thaisa Carmona
    abril 1, 2011 às 11:59 pm

    Era tudo oq q eu precisava ,gostei muito mesmo !!Fizeram um bom trabalho e isso me ajudo muitooo msm . Obrigada e parabéns !!VALEUUUUUU

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