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EFLÚVIOS LEVANTINOS

Um querido amigo me endereçou uma pergunta assaz difícil durante o jantar: responda-me rápido, e sem rodeios: o que você prefere, Baalbeck ou Byblos?… Fenícios ou Romanos?…

Confesso que fiquei atordoado, pois esse é um tipo de questão que, para nós Psicólogos, é geradora de um estado psicológico denominado de dissonância cognitiva. Segundo uma definição epistolar, a tal da dissonância cognitiva é um estado de tensão mental que ocorre diante de situações que temos de escolher entre duas ou mais opções excludentes… Isto é, ou isso ou aquilo, é pegar ou largar, ou vai ou racha… Entenderam?
Para um bom entendedor, meia palavra basta: só se pode escolher uma opção, não mais de que isso! E, num piscar de olhos cognitivo, milênios e milênios de história se passaram em minha tela em frações de segundos, tal como em um slide-show mental, onde todos os meus sonhos, arquétipos, imagens fugidias e estereotipadas se postaram diante de mim, como em uma parada cintilante de formas, volumes, cores e estruturas… Tudo emoldurado por uma paleta de cores antiquíssima, uma verdadeira aquarela de efígies, que me fizeram recordar da antiga coleção de livros sobre história das civilizações antigas, que meu saudoso e querido pai me presenteou quando criança… Será por causa da saudade que tenho dele? Ou será a saudade que tenho de mim mesmo? Ou melhor, a alegria de pertencer ao tempo dos meus, dos seus e dos nossos antepassados?
Ou será que estou me desreencontrando para me reencontrar?
Caros leitores, perdoem a divagação desse simplório Escriba, que teima em procurar as suas origens em cada foto, em cada templo, em cada ruína, em cada coluna… Para ele, a memória é o seu mais precioso santuário, cujos hieroglifos estão lá, crípticos, a espera de serem decodificados…
Byblos tem mais de 7.000 anos de existência, e sua origem se confunde com os primórdios da civilização humana, dada ser a cidade mais antiga a ser habitada… Suas ruínas testemunham silenciosamente séculos de ocupação humana, e suas paredes são monumentos a céu aberto da passagem de nossa espécie pela Terra. Às vezes penso o quão seria interessante estar no lugar dessas construções, dado o privilégio de terem assistido ao desfile de fenícios, egípcios, gregos, persas, macedônios, judeus, cristãos, muçulmanos… Isso me faz lembrar um conto do escritor argentino Jorge Luís Borges – intitulado O Imortal – que descreve uma civilização de semi-deuses que estão em uma cidade edificada desde o início dos tempos, tendo presenciado a criação do céu e da terra, e o passar das estações de cada ano durante tempos muito antigos, ao sabor do vento mediterrâneo que beija preguiçosamente o porto ancião, dando as boas-vindas aos seus visitantes no tempo…
Por seu turno, Baalbeck é continental, estando encravada no Vale do Bekaa acerca de 1.170 metros de altitude, a oeste do Rio Litani. É também uma cidade que exala história, antiga confluência de viajantes, exploradores e guerreiros, sendo um monumento a céu aberto da arquitetura romana clássica. Aliás, na época do Império Romano, a cidade era conhecida como Heliópolis, caracterizada pela presença de um dos maiores santuários daquela época… Todas essa civilizações, cada uma a seu tempo, por lá passaram, se fixaram e se retiraram, e de uma certa forma todas deixaram suas marcas em suas paisagens, ruas e edificações…
Voltando ao meu amigo, ele me pediu para escolher qual das duas opções… Que destino funesto este, pensei, imaginando uma Espada de Dâmocles prestes a desabar sobre minha nuca! Logo eu, que sou tão assediado pela história e pelo senso de pertença…
Ele, alías, me fez um enorme favor: além de me apresentar duas belíssimas opções, me forneceu um mote para que eu pudesse divagar até essa hora da madrugada, imerso em meus pensamentos, nada mais do que meros arabescos mentais, construções bizantinas de meu ser…
Apesar de pulsar o Tejo em meu âmago, sinto-me íntimo dos fenícios, pois faço parte de uma longuíssima saga de exploradores e de navegadores, onde portos e navios são lugares-comuns, aliás verdadeiros não-lugares, posto que quando mais nos afastamos deles mais vemos ao longe, e mais encontramos, nos escombros da nossa alma, a nossa identidade perdida, a nossa pedra filosofal…
No decurso dessa caravanserai, espero um dia ser recepcionado com água de rosas e flores jogadas das sacadas das janelas. Além disso, sonho com os cedros no topo dos montes e vales nevados, tal como um fio de Ariadne, a me seguir no fluxo de minhas idéias…
Daqui há pouco estarei viajando para um outro lugar… E nessas horas, sempre sou acossado vertiginosamente por sentimentos complexos – um misto de pertença, distanciamento, compartilhamento e perplexidade -, típicos de quem está postado no tombadilho, em aceno frequente, bem ao longe, para as pessoas que ficaram no porto…
Graças a esses eflúvios levantinos, que até então estavam adormecidos nas câmaras recônditas do meu ser, posso fazer emergir os meus pensamentos, toda a vez que me deparo com essas ruínas, que exalam história e civilização…
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