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O ESPAÇO ENTRE AS POLTRONAS DOS AVIÕES É REALMENTE ANTI-VITAL?

Esse Escriba está fortemente convencido que as coisas aqui no Brasil só andam de maneira espasmódica, ou a maneira de uma senóide, se os leitores gostam de uma metáfora matemática… Somente quando ocorrem catástrofes inenarráveis ou escândalos de corrupção indecentes, é que a nossa indiganação atinge um grau máximo que nos vemos obrigados a nos manifestar de alguma maneira. Porém, enquanto isso não vem, a letargia e a dormência das instituições governamentais e da opinião pública é típica de uma país que, segundo os cientistas políticos, apresenta uma padrão de baixa inserção de cidadania… Passado os surtos convulsivos repentinos, a coisa se acomoda, e tudo anda como antes no quartel de abrantes, segundo nos ensina o velho dito popular… Ou, parodiando o título de um belíssimo filme do cineasta italiano Federico Fellini, e la nave va…
O Ministro Nelson Jobim assumiu com a corda toda a pasta da Defesa, prometendo um “choque de gestão” no âmbito do transporte aéreo comercial – que é o verdadeiro “calcanhar de Aquiles” do Governo Lula, no entender do segmento mais escolarizado e bem posicionado economicamente de nossa população. Em duas semanas de ministério, o negócio foi feio: demitiu-se o Presidente da Infraero, desautorizou-se o papel da Anac como formuladora de políticas públicas para o setor, foram recebidos os parentes das vítimas do acidente com o avião da TAM e, para o enorme desagrado das companhias aéreas, restringiu-se severamente as operações de pouso e decolagem no Aeroporto de Congonhas – principal hub da aviação comercial brasileira antes da tragédia. Haja fôlego…
Claro que a experiência anterior de Jobim conta e muito neste verdadeiro “ninho de cobras” que é o Ministério da Defesa… Pelo fato de ter ocupado vários cargos de alto escalão na administração federal em diferentes governos, o Ministro conhece como ninguém a liturgia que o cargo exige, além, é claro, de sua notória vaidade e de seu apreço pelo poder – afinal, ele é figurinha carimbada em qualquer lista de presidenciáveis, e 2010 está logo ali…
Por ser um profundo conhecedor da máquina governamental, Jobim sabe como ninguém “desarmar bombas” e se fazer respeitar pela autoridade e a hierarquia que o cargo impõe… E isto é extremamente importante no âmbito da gestão de uma pasta militar por parte de um civil, dada a notória e clara resistência das três armas a esse tipo de controle por parte de um não-militar…
Para quem é usuário costumaz da aviação civil brasileira – como é o caso desse Escriba -, seja a passeio ou a negócios, vem de longe a “zona” instalada em nosso sistema aeroportuário. Várias são as explicações para o surgimento desse quadro, mas a convergência de alguns fatores foram fundamentais para que tal estado de coisas se instalasse e se prolongasse de maneira crônica…
Primeiro, a crise cambial de 2002, que simplesmente pulverizou o conceito de âncora cambial fixa – sustentáculo da estabilidade econômica durante o Plano Real. O aumento estratosférico do dólar é mortal para o setor aéreo, dado que a grande maioria das despesas (combustível, leasing e manutenção das aeronaves) é feita em moeda americana, enquanto que a receita é captada em reais. Se a saúde financeira da companhia é crítica, não há empresa que aguente o tranco – vide o caso da finada Varig
Os atentados de 11 de setembro de 2001 e o caso da gripe asiática (SARS) afetaram drasticamente a demanda pelo transporte aéreo, aumentando o déficit financeiro das companhias em função da queda abrupta de receitas. A demanda por transporte aéreo é extremamente sensível ao fator segurança, e quando essa não é garantida seja por falhas de manutenção, problemas operacionais ou questões referentes a infiltração de grupos terroristas nas aeronaves, o resultado é uma diminuição sensível na procura por passagens aéreas. Além do mais, com o reforço das medidas de segurança e ingresso em “países-alvo”, muitos passageiros se sentiram desestimulados a viajar, dado os transtornos enfretados nos guichês das autoridades de imigração…
A solução foi a criação de um novo – e polêmico – modelo de negócios, intitulado pelos especialistas do setor de “low cost, low fare” (baixo custo, baixa tarifa). Introduzido pela companhia norte-americana Southwest, atualmente as crias deste modelo se espalham ao redor do mundo em diversos continentes – por exemplo, Ryanair, Volare, Buzz, JetBlue, Gol… Visto pelos executivos do setor como a “salvação da lavoura”, entre os passageiros tal percepção de geração de valor não é unânime… Salvo o barateamento das passagens graças a fatores como venda de bilhetes pela internet, uso intensivo das aeronaves com várias escalas, aproveitamento quase que total do espaço interno – isso sem falar nas “malditas” barrinhas de cereais e do aperto nos assentos dos aviões -, muitos clientes (especialmente os passageiros executivos) têm horror a essas empresas, dado o serviço absolutamente precário e indiferenciado prestado ao cliente. Exemplos de precariedade no atendimento: as filas no guichês de check-in são um lugar comum, a diminuição no espaço para as bagagens de mão é notória, o despacho das malas é compulsório – e o consequente tempo perdido nas esteiras no momento da restituição -, os atrasos constantes das conexões, a cordialidade “forçada” dos comissários, tudo isso contribui para uma certo descontentamento frequente e crescente por parte dos clientes dessas empresas.
Não é à toa que alguns passageiros bem-humorados já alcunharam esse modelo de negócios: Grande Ônibus Lotado…
Agora, o nosso intrépido Ministro está empreendendo uma nova cruzada contra a redução do “espaço vital” nas aeronaves, dado o aperto de espaço entre os assentos. Para quem é alto, claustrofóbico, sofre de Síndrome do Pânico, é estressado ou encontra-se acima do peso, viajar nessas companhias é um verdadeiro suplício! Isso é porque ainda não piorou mais: algumas fabricantes de aeronaves – leia-se Boeing – estão já estudando a possibilidade dos passageiros viajarem em pé… Daqui há pouco vamos nos acomodar nos aviões de maneira semelhante ao que ocorre em muitas das vans aqui no Rio de Janeiro, especialmente àquelas que fazem trajetos do tipo Venda das Pedras – Central do Brasil…
É claro que a grita é enorme entre as empresas, e tem muita gente dizendo que é inevitável o aumento do preço das passagens aéreas! Novidade… Desde quando esses caras jogam para perder? Ganharam dinheiro à balde nos dois últimos anos, graças ao duopólio criado às expensas da leniência da Anac, e agora estão choramingando as suas mágoas ao governo… Je suis très desolé…
Enquanto isso, os passageiros que se danem! Também, a passagem está baratinha: é quase dez conto e o dinheiro do busão…
Ministro, conte com o apoio desse Escriba nessa cruzada! Afinal, estou de saco cheio de me sentir uma sardinha enlatada! Nem os trens da Supervia são mais assim…
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