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LULA PERDE APOIO DA CLASSE MÉDIA. E DAÍ?

Desde a ascensão do Presidente Lula ao poder, em 2002, que o seu governo é marcado por realizações e escândalos – nada excepcional para um regime democrático, aliado a uma imprensa atuante e doida para vender jornal! No entanto, desde o primeiro escândalo do “Caso Waldomiro Diniz”, passando pelo “Mensalão” e o episódio do “dólar na cueca”, as ligações pretensamente escusas do filho do presidente, o “apagão aéreo” e os desmandos na Anac, Infraero e Ministério da Defesa, há uma sensação crescente de que a corrupção campeia os mais diversos âmbitos do Governo Federal. Relembrando o famoso Carlos Lacerda, “um rio de lama corre no Planalto”, vibram os saudosos udenistas…

Noves fora, a corrupção não é algo episódico, e sim algo endêmico e estruturante da sociedade brasileira! E é no mínimo um ato de má-fé histórica e intelectual culpabilizar o Governo Lula por todos os males da nação! Sua incompetência gerencial, a vaidade e o narcisismo defensivo de quem se acostumou a ouvir aplausos de claques pelegas nos tempos aúreos do sindicalismo, bem como a capacidade de apaniguar amigos derrotados e “fritá-los” posteriormente são alguns dos traços mais marcantes de sua personalidade deveras complexa e contraditória… Daí a jogar tudo nas costas dele, a bem da verdade, é uma tremenda injustiça – para não falar outra coisa! Alguns podem dizer: também, o que esperar de um camarada cuja experiência administrativa é zero! Nunca, em sua vida, gerenciou nada, e construiu o seu prestígio com base apenas em sua história de vida.

Lula é o típico sonho brasileiro: o cara que veio de baixo – no caso, de Garanhuns, interior de Pernambuco – e que subiu na vida graças ao seu esforço pessoal… Em seu caso, o que é mais pitoresco ainda, sem trabalho árduo e sem estudo!!! Lula é o sonho de consumo de qualquer brasileiro: se dar bem sem fazer nada! Sem estudar, sem trabalhar, sem se esforçar, só tendo a tarefa de usufruir as benesses oriundas do poder! Enfim, um verdadeiro sonho de consumo… Ou, como diriam os psicanalistas, um verdadeiro caso de inconsciente a céu aberto…

Criticar um arquétipo – no sentido jungiano do termo – é algo deveras arriscado, posto que este congrega todas as virtudes, defeitos, contradições e ansiedades do que é ser brasileiro. Inegavelmente, Lula é um dos vários tipos ideais dos brasileiros. O problema está em achar que Lula é o brasileiro par excellence

A relação entre o Presidente e a Classe Média sempre foi complexa e paradoxal, dada as origens sociais diferentes de cada um e as ansiedades oriundas da possibilidade de ascensão política de um elemento proveniente das classes menos favorecidas economicamente. Entretanto, a classe média sempre esteve dividida entre o apoio e a rejeição a Lula, e a tudo aquilo que o seu projeto político representa.

Em um livro interessantíssimo intitulado Classe Média: desenvolvimento e crise (Editora Cortez, 2006), organizado pelo economista e especialista em trabalho Marcio Pochmann – ex-Secretário de Trabalho da Prefeitura de São Paulo na gestão de Marta Suplicy, e futuro presidente do Ipea -, procura-se estabelecer os traços distintivos do que se denomina genericamente de classe média. Segundo os autores, os traços distintivos desse segmento seriam: padrão de consumo acima da classe popular, emprego estável (de preferência, em instituições do estado), a crença na educação como meio preferencial de ascensão social, anseio da casa própria, estabelecimento de instrumentos de poupança como meio de potencialização futura de consumo e, por fim, dada sua posição intermédiária, seu status adquirido como segmento formador de opinião. É daí que surge o mito dos estratos médios da sociedade como guardiãos da estabilidade política e social. E a explicação é simples: os ricos não estão nem aí para o projeto coletivo de nação, posto apresentarem um comportamento auto-interessado e predatório; já os pobres sofreriam influência direta – inclusive em termos de voto – dos segmentos médios, dada a sua proximidade com os patrões.

O ineditismo de Lula está em implodir com este padrão. É inegável que, desde o Governo Collor, a classe média vem sofrendo os horrores da modernização econômica – salvo um breve interlúdio em 1994, com o início do Plano Real. Desemprego no setor privado, perda do poder de investimento do setor público, arrocho fiscal e o foco dos políticos populistas nas classes menos favorecidos via programas assistencialistas, erodiram o prestígio político da classe média como termômetro da nação. Em minoria numérica, e com o crescimento da participação política dos segmentos mais pobres, a classe média se tornou a geni da vez, mais enxovalhada em praça pública do que Judas em Sábado de Aleluia…

Lula é eleito em 2002 com um grande apoio dos segmentos médios da sociedade, fartos da privatização, do aumento das tarifas públicas, da precarização dos empregos, da perda do poder de compra, da diminuição do papel do estado e da perda de fôlego do projeto de nação esboçado pelos tucanos. Afinal, o programa de governo do PT era tudo o que a classe média queria: fortalecimento do Estado, geração de empregos, diminuição dos impostos, melhoria da qualidade dos serviços públicos… Era a classe média sonhando com o paraíso!

Eleito o Presidente, fica clara a sua opção pelos mais pobres – bem entendido, uma demonstração clara de coerência com o seu passado! No entanto, ano após ano, os sonhos de melhoria de vida foram se esvaindo, e a frustraçao acumulada deu vazão à raiva com os escândalos de corrupção, os desmandos gerenciais, e a gota d’água chegou com o acidente da TAM em Congonhas – contabilizando 200 cidadãos mortos… E, aí, toma de passeata, de protestos na Avenida Paulista, de blogs analisando a situação…

E daí? O Governo não esta nem aí para a classe média! Suas opiniões pouco valem para um país extremamente desigual, majoritariamente composto por segmentos mais pobres que, numa espécie de movimento de dar o troco por séculos de exploração, não é nem um pouco solidário com os anseios de seus antigos patrões e feitores. Outrora explorados, essa massa ascendente é composta por empreendedores informais, pequenos comerciantes e prestadores de serviço que, dado o suporte governamental a partir de programas assistencialistas, usufruem concretamente das possibilidades de aumento de rendimento dada a vocação terciária dos grandes centros urbanos. E é preciso lembrar que esses segmentos são mais afeitos à líderes políticos do tipo carismático – perfil típico de nosso Presidente. Afinal, já esqueceram de Getúlio Vargas, cuja alcunha popular era “o pai dos pobres”???

Para isso, recomendo fortemente a leitura do instrutivo livro de Alberto Carlos Almeida, Por Que Lula? (Editora Record, 2006). Em uma análise das eleições presidenciais de 2002, o autor mostra que a candidatura de Lula foi favorecida pelo viéis majoritário do eleitorado brasileiro, que é anti-liberal, estatista e simpático ao patrimonialismo – a chamada apropriação privada dos recursos públicos.

Claro que o Palácio do Planalto está preocupado com a erosão de prestígio do Governo na classe média, segundo apontam as últimas pesquisas de opinião do Data Folha. Mas, volto a perguntar, e daí? Por mais que o Presidente faça bravatas do tipo “nunca esses caras ganharam tanto dinheiro como agora”, o fato é que o seu target não é esse. A prova disso é o distanciamento do governo com os movimentos sociais, especialmente os da esquerda cristã, berço da classe média intelectualizada… Os valores cultuados pela classe média nunca estiveram tão em baixa quanto agora, e é óbvio que isto a retira da mira dos políticos e dos operadores governamentais…

A médio prazo, tudo isto é lastimável, dada a perda de pujança desse segmento como os historicamente mais interessados na gestação de um projeto de nação – mesmo com o jogo de interesses, contradições e iniquidades em nosso país… Lula é um líder carismático, um excepcional comunicador, e entende como ninguém a psicologia popular. A leniência das classes baixas com a roubalheira é histórica – afinal elas aprenderam com séculos e séculos de convivência com os senhores de engenho, políticos, homens de direito e até mesmo capatazes corruptos. O mote é: roubar pode, pois afinal todo mundo rouba!… Que mal há em se dar bem, em um país onde só otário é que cumpre as suas obrigações!… Desde que se faça, roubar é até permitido, pois afinal todo mundo é filho de Deus… Vide os ademarismos, os malufismos, os colloridos…

Vivemos um ponto de inflexão em nossa historia política e social, e penso que a sociedade brasileira deve ser repensada com base em novos parâmetros. Muitos me perguntam se estamos caminhando a passos largos para uma sociedade cindida, à la Venezeuela, dividida entre ricos e pobres… Ou melhor, entre remediados, menos pobres e mais pobres…

Ainda é cedo para se constatar isso, dado que a marcha dos processos históricos nem sempre anda a uma velocidade condizente com a urgência das análises… A prova dos nove será em 2010. Mas, se for isso, o negócio é sentar e chorar! Ou então, rezar para que o dólar esteja baixo até lá, e emigar para o exterior… E que o último não se esqueça de apagar a luz!
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