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ADEUS BERGMAN…

Segunda-feira gélida, cinzenta, um dia atípico de inverno na cidade do Rio de Janeiro… Logo de manhã, escutando a CBN no carro ao me dirigir ao trabalho, ouço a notícia do falecimento de um dos meus maiores ídolos cinematográficos: o diretor sueco Ingmar Bergman, aos 89 anos, em sua casa na ilha de Faaro.

Bergman é um dos expoentes do chamado cinema de arte, característico dos anos 1960, tão cultuado e singular, e cuja obra não vemos mais nos dias de hoje…
Seus filmes marcaram toda uma geração de cinéfilos absolutamente identificada com temas que atormentam a existência humana, tais como a incomunicabilidade entre as pessoas (Saraband), a angústia perante o envelhecimento (Morangos Silvestres), a finitude (O Sétimo Selo), a loucura, a solidão (O Silêncio), o desamparo e a falta de sentido da vida (Sonata de Outono). Além do mais, para quem é psicólogo e estudou psicanálise como esse Escriba, seus filmes são uma referência inesquecível. Filmes como Persona, Gritos e Sussuros, Cenas de um Casamento, Fanny & Alexandre, Face a Face são clássicos da área. Sua abordagem sobre a loucura e a complexidade psicológica de suas personagens, perdidas em surtos e conversões histéricas, são memoráveis…
Cineasta das complexidades da alma, das longas pausas e também da loquacidade, da opressão mental e da melancolia, Bergman marcou profundamente uma geração de pessoas preocupadas com questões metafísicas, situadas para além das preocupações financeiras e de status. Cada filme novo dele era esperado com alegria pelos cinéfilos, e me lembro de muitas vezes eu matar aulas na faculdade só para assistir as suas películas na Estação Botafogo – point cult de cinema de arte nos anos 1990.
Sou imensamente agradecido pelos insights que obtive ao assistir os seus filmes, bem como os momentos memoráveis de entretenimento sério e reflexivo, que foram fundamentais em minha formação intelectual. Não me saem da memória cenas genais como as do Cavaleiro Antonius jogando xadrez com a Morte em O Sétimo Selo, as recordações de um tempo já ido de Morangos Silvestres, os surtos histéricos em Gritos & Sussurros, as inovações estéticas em Persona e os diálogos absolutamente severos e cruéis de Saraband
Pena que agora não haverá mais nada novo para ver e se deliciar. Não importa, já faz algum tempo que estou montando a minha coleção de filmes favoritos, e toda a cinegrafia de Bergman é um dos meus sonhos de consumo.
Como todo artista profundamente autoral, Bergman influenciou grande parte de seus contemporâneos. Woody Allen é um dos mais claramente identificáveis, tendo inclusive feito um trilogia – Interiores, Setembro e A Outra – inspirada na obra do diretor sueco. Allen fez na comédia algo semelhante ao que Bergman fez no âmbito do drama. Mas, como todo gênio, sua obra é única, e só nos resta agora acompanhar detalhadamente os seus filmes em DVD ou nas retrospectivas nos cinemas.
Aos poucos, os meus heróis vão se extingindo. Ainda sou jovem, vocês podem retrucar, mas nunca me senti tão velho… Aliás, eu já vi tanta coisa…
Obrigado Bergman, pela beleza e pelo pouco de conforto que os seus filmes me proporcionaram face a insensatez da vida…
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Categorias:Arte, Cinema, Ingmar Bergman
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