Início > Futebol, Seleção Brasileira > A TRAGÉDIA DO SARRIÁ 25 ANOS DEPOIS…

A TRAGÉDIA DO SARRIÁ 25 ANOS DEPOIS…

No dia 5 de julho passado, há exatos 25 anos atrás, uma página do futebol brasileiro foi virada definitivamente para trás… Nesta data, em 1982, a Seleção Brasileira perdia por 3 X 2 pelas quartas-de-finais da Copa do Mundo da Espanha, no finado Estádio Sarriá, em Barcelona.

Confesso aos meus leitores que, até 1994, eu me sentia frustradíssimo por não ter visto o Brasil ter conquistado uma Copa do Mundo. Eu ouvia – com inveja – o meu pai relatar o bicampeonato mundial de 1958 e 1962, com o time brasileiro recheado de cracaços como Pelé, Nilton Santos, Didi, Garrincha, Amarildo, Djalma Santos, Zito, Vavá, Zózimo… Ouvia também com bastante respeito o Maracanazo de 1950, quando Ghigghia e a Seleção Celeste calaram o Maracanã, jogaando para sempre nas trevas uma geração excepcional de jogadores como Zizinho, Danilo, Jair da Rosa Pinto, Juvenal, Ademir Menezes, Friaça, Bauer… Eu ouvia histórias tristes como as do goleiro Barbosa e do defensor Bigode – acusados de crime de lesa-pátria – na final contra o Uruguai, nunca mais sendo reabilitados… Acabaram entrando para a história como uma geração derrotada e envergonhada… (basta ver o belíssimo livro do Roberto Sander, Anos 40: Viagem à década sem Copa, Editora Bom Texto, 2004).
Até então, uma de minhas maiores frustrações foi não ter visto jogar a Seleção Canarinho que conquistou o tricampeonato no México, por justamente eu ter nascido há 10 dias antes da estréia do Brasil na Copa – precisamente no dia 24 de maio de 1970. Como nessa época já existia o videoteipe à cores, eu pude rever mais tarde todas as partidas do time até a final magistral contra a Itália – quem diria! -, com um dos maiores times de todos os tempos: Pelé, Gerson, Tostão, Jairzinho, Rivellino, Carlos Alberto Torres e toda uma geração de ouro que encantou o mundo e entrou para a história!
Do vexame da Copa de 1974 não me lembro, nem nunca me interessei… A primeira Copa que acompanhei mais de perto foi a de 1978 na Argentina, onde assisti todos os jogos no chão frio da sala do apartamento da minha família em Madureira – nessa época eu tinha 8 anos! Aliás, foi uma das Copas do Mundo mais estranhas que eu já vi; o cheiro de armação já veio na estréia do Brasil contra a Suécia, quando o doente mental do juiz anulou o gol do desempate quando a bola estava no ar após um escanteio! Me lembro também da estréia do Zico – o meu futuro ídolo rubro-negro -, dos gols do Roberto Dinamite contra a Áustria e a Polônia, do jogo tenso contra a Argentina em Rosario, da maior roubalheira do século que foi a vitória de 6 X 0 da Argentina contra o Peru, do gol “espírita” do Nelinho contra a Itália… Foi a primeira vez que eu acompanhei de perto uma Copa do Mundo…
Guardo lembranças nítidas da Copa de 1982! Eu, naquela época, tinha 12 anos, torcia fervorosamente pelo Flamengo, e já tinha visto o time ser Campeão do Mundo justamente 1 ano antes contra o Liverpool em Tóquio – aliás um baile de bola de Zico, Adilio, Andrade & Cia. Ltda!… Me lembro também que estava empolgado pois a minha famíia tinha se mudado para um apartamento novo na Praça Seca, local onde até hoje residem a minha mãe e o meu irmão… A imprensa falada e escrita naquele ano fez um verdadeiro Carnaval fora da época, e todo o país estava “pilhado” antes da competição…
Todo o Brasil tinha a convicção de que nós éramos o melhor time do mundo, e de que o Caneco era nosso, era só uma questão de tempo! O país inteiro virou um conjunto de Pachecos, um mês antes do início da Copa as ruas estavam todas enfeitadas, cheias de bandeirinhas, as ruas e as calçadas pintadas, e o clima era de “Voa Canarinho, Voa” – samba que embalava os sonhos da torcida na voz de jogadores como Júnior e Zico
Veio o primeiro jogo, e foi um sufoco: 2 X 1 de virada contra a União Soviética, com dois golaços de fora da área do Sócrates (com um belíssimo corta-luz de Falcão) e do Éder (encobrindo o goleiro, uma pintura!)… Os outros jogos da primeira fase – contra a Escócia e a Nova Zelândia – foram barbadas… Nas oitavas-de-final, outro show contra os nossos eternos rivais argentinos, e fomos nós todos – time e país – para as quartas-de-final contra a Itália
Sob esse jogo, basta rever os teipes da partida para saber que, apesar de tudo, o nosso carrasco Paolo Rossi estava realmente impossível naquele dia! Não me importa quem jogou mal ou foi culpado pela derrota, mas certamente esse dia foi um dos mais tristes da minha vida! Quando o jogo acabou, o Brasil inteiro mergulhou em um clima perplexidade e tristeza profunda, que eu jamais tinha visto antes… Me lembro de ter perguntado ao meu pai se na Copa de 1950 a reação tinha sido a mesma, e ele ter me dito que o sentimento era parecido… Acho que foi nesse dia que começei a tomar conhecimento de algo chamado dor e tristeza, logo em pleno alvorecer da minha vida!
Enfim, veio 1986 e 1990, e as decepções foram as mesmas – só que em menor intensidade! Eu estava aborrecidíssimo pois estava convencido de que nunca veria o Brasil ser Campeão do Mundo… Aí veio 1994 nos EUA, e aquela angústia do diabo vendo a maldita retranca do Parreira, e torcendo para Romário e Bebeto resolverem a parada… No final, a vingança de todo o Brasil foi ganhar da Itália – olha ela de novo! – nos pênaltis, depois de uma partida onde quase eu tive um enfarto! Após 24 anos, eu finalmente gritei: É TETRA !!!
Foi assim que eu me senti fazendo parte da história do futebol brasileiro…
Depois disso, o Brasil foi vice-campeão em 1998, hexacampeão em 2002, e passou vexame em 2006… Mas, aquela Seleção que encantou o mundo em 1982 e deixou o Sarriá derrotada, foi o fechar de uma porta que nunca mais se abriu… Foi a passagem conceitual do futebol-arte para o futebol de resultados! Uma verdadeira revolução paradigmática, no sentido de Thomas S. Kuhn! Jogadores criativos de meio-de-campo deram lugar ao defensivismo de cabeças de área postados no campo com a única função de destruir jogadas, e não de construí-las… Olhando retrospectivamente para o dia 05/07/1982, na minha ingenuidade infantil, eu não tinha noção de que eu estava presenciando um momento histórico: o de que eu nunca mais veria um futebol ser jogado daquela maneira…
Tal como em 1978, recebemos a alcunha de Campeões Morais! Esse momento foi um dos muitos que tornam o futebol tão mágico e surpreendente, onde nem sempre o melhor ganha…Tudo bem, não ganhamos a Copa, mas a Seleção de 1982 conquistou corações e mentes de todos os torcedores, e deixou o seu lugar na história – assim como as Seleções de 1950, 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002… Até hoje o time é lembrado como um dos mais geniais de todos os tempos, assim como o seu técnico Telê Santana – um monstro do futebol, tanto como jogador quanto como treinador!
Assim, do menino de 12 ao homem de 37 anos, gostaria de agradecer imensamente a esse time por ter me proporcionado tantos momentos de magia, encantamento e deslumbramento. A minha paixão pelo futebol veio dali e de outros tantos momentos até hoje. Para quem é meu íntimo, eu costumo dizer que a Seleção de 1982, o Flamengo dos anos 1980 e o Maracanã de todos os tempos – lotado com seus gritos, bandeiras e fogos – foram (e são) os responsáveis pela paixão desse Escriba por esse esporte bretão!
À Leandro, Oscar, Falcão, Luzinho, Júnior, Toninho Cerezzo, Zico, Sócrates, Éder, Telê Santana, e todos os outros… Muito obrigado por terem despertado a paixão pelo futebol nesse garoto que vos escreve!
Anúncios
  1. Alberto Júnior
    julho 9, 2007 às 3:41 am

    Olá, Professor!
    Grande time esse hein! De uma harmonia e ofensividade, pouco vistas na história do futebol. Eu nessa época contava 4 anos de idade e me lembro só de alguns flashes de jogos. O curioso é que na copa posterior eu já tinha 8 anos e minha memória visual guardou muitos dados daquela copa, apesar de ainda não ter um entendimento “científico” de futebol, digamos assim. Lembro do goleiro belga, Jean Marie Pfaff, figuraça que jogava com um boné que tinha mãozinhas nas abas. “Chamou minha atenção sua irreverência e por alguns anos sempre que eu era chamado ao gol nas peladas eu me auto-intitulava, ““Pfaff”. A dinamáquina também me traz recordações. Gary Lineker, A Espanha de Emilio Bultragueño, O jogo Brasil e França me traz o primeiro trauma francês, com o pênalti perdido por Zico. A bola batendo na cabeça do bom e azarado goleiro Carlos e entrando. E talvez a mais forte lembrança seja o gol de Burruchaga na final. Apesar de serem mais fortes visualmente essas lembranças de 1986, em 1982 me fica uma dor maior, porque era a dor alheia que eu sentia sem entender, a festa interrompida, a tristeza que eu não sentia tanto pelo jogo, mas pela farra acabada, a estrelinha que minha mãe tinha me dado, (um tipo de fogos de artifícios que funcionava como essas velas de bolo de aniversário que ficam soltando faíscas) e a associação da estrela pirotécnica com a estrela olímpica dada pelos jogadores ao comemorar um gol. Minha mãe que depois disso nunca mais sentou-se pra ver jogo de copa ou jogo algum. Foi esse o único ano que a vi assistir jogos. Portanto minha memória afetiva guarda essa tristeza que mais tarde eu pude encontrar no mestre Telê Santana o culpado por não ter levado o Roberto Dinamite do meu Vascão por considerações pessoais e não profissionais e levar Serginho Chulapa !! Ah, Chulapa… Por não dar a atenção devida a defesa, pois futebol desde os primórdios futebol não é só ataque. Tanto que a grande virtude que fez de Pelé o jogador que foi, é o fato de ter sido completo. Tanto ofensivo, quanto defensivo. Atacava e voltava pra marcar em um tempo que poucos jogadores tinham esse senso. Mas, não culpo pela morte do futebol arte aquela derrota. Ela só antecipou um processo mercadológico. A era onde tínhamos jogadores folclóricos com declarações infames e vocabulário precário estava condenada a acabar com a transformação do mercado da bola em um negócio mais rentável do que já era. Há pouco mais de 10 anos era um escândalo o anúncio da compra pelo Millan do jogador Gianluigi Lentini por 15. milhões de dólares ! Era então o jogador mais caro história. Jogadores de futebol passaram a ser funcionários burocráticos, sem autonomia pra criar ou arriscar. Joogadores como Gerson, Romário, Garrincha não tinham atitude ousada só dentro de campo, isso vem de fora. Hoje se mostram essas facetas nas concentrações acaba por incomodar os donos do espetáculo. Craques nascem todos os dias, mas os mais atrevidos são “limados” nas categorias de base por serem categorizados como atletas que tem problemas com disciplina e autoridade (que são aspectos importantes). Marginalizados são triados pra fora dos clubes se é que chegam lá. Não há mais espaço pro lúdico e pra ousadia. O futebol se submete de vez ao capital. Vivemos épocas em que jogadores são impecáveis ao darem uma entrevista pra não se comprometerem pelas palavras, e esse medo de ficarem comprometido é levado pra dentro das quatro linhas, ninguém chama a responsabilidade pra si. Semana passada eu vi a entrevista do Técnico Dunga no programa de entrevistas da Angélica “Estrelas” na Globo, e o ouvi dizer que o MAIS importante pra ser jogador de futebol não é o talento com a bola, mas o comportamento que ele tem fora de campo. Será que se ele tiver que passar por uma cirurgia ele vai escolher um médico que tem uma habilidade fantástica com o bisturi cirúrgico, mas polêmico dentro do hospital ou um médico bem comportado mais barbeiro ao operar? Essa colocação acho eu, é um resquício da “Era Dunga” gritando com sotaque gaúcho: Báh, Agora é a mim que vocês vão ter que engolir, Tchê !

    Boa semana !!

  2. Anonymous
    julho 9, 2007 às 8:56 pm

    Allons, Alberto!
    Allons, Zé Mauro, professor e amigo!

    Tenho muitas, lindas, torturantes e líricas lembranças da seleção de 82!!


    Como estou um tanto sorumbático hoje, quero, nesta véspera de Brasil e Uruguay pela Copa América, salientar que, a propósito do comentário do Dunga (que você, Alberto, nos trouxe), da “importância do comportamento extra-campo dos jogadores ser o que mais importa”, tenho a alegria de saber que temos em nossa história o beberrão e mulherengo Garrincha!!
    Na seleção do Dunga, o Mané não jogaria, mas na minha – do meu coração – joga sempre. E, bem, pra não me estender muito: O Dunga não ‘tá com nada!:p
    O Dunga é uma escuridão nos ossos!!
    Viva o Mané, o Pelé, Nilton Santos, Didi… e Sócrates, Falcão, Zico, Leandro, Éder e todos aqueles que sempre jogaram muita bola, enchendo nossos olhos e corações de beleza!!
    Abraços,
    Victor.

  3. José Mauro Nunes
    julho 10, 2007 às 2:17 pm

    Meus caríssimos Alberto e Vitor , bom dia!

    Estou aqui em Goiânia lendo os seus comentários, e fico muito feliz que ainda temos apreciadores do bom e velho futebol-arte. O problema é que hoje os garotos saem do Brasil no infantil, e já são doutrinados no futebol-força e futebol-tática. Por isso é que vemos a nossa seleção principal e as de base fracassarem nas últimas competições que disputaram! Continuem assim, que o blog desse escriba só tem a agredecer.
    Grande abraço!!!

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: