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EDITORAS BRASILEIRAS DESCOBREM O MULTICULTURALISMO

Aproveitando a oportunidade, falarei mais um pouco sobre o mercado editorial brasileiro. Agora, sobre um fenômeno que já algum tempo domina o cenário literário norte-americano e europeu, mas que agora começa a dar os ares de sua graça no Brasil. Trata-se da literatura pós-colonial ou multiculturalista, que nos últimos tempos vem sendo uma surpresa agradável no mercado literário brasileiro.
O multiculturalismo é um fenômeno que vem agitando a seara intelectual dos países do Hemisfério Norte, e que foi brilhantemente descrito pelo antropólogo norte-americano Clifford Geertz – em um artigo publicado no The New York Review of Books– intitulado Cultural Wars. Esse movimento teve início no âmbito das ciências humanas e sociais, quando intelectuais de países do Hemisfério Sul começam a elaborar suas visões sobre civilização, progresso, história, identidade e democracia a partir da perspectiva dos países colonizados, isto é, dos povos dominados e aculturados pelos colonizadores europeus. Uma enxurrada de títulos de autores indianos, jamaicanos, melanésios, africanos e árabes inundou o cenário intelectual, levando a uma problematização dos conceitos da Sociologia e da Ciência Política tal como pensandos na ótica dos europeus e note-americanos.
Dois dos maiores expoentes dessa discussão são o jamaicano-britânico Stuart Hall e o indiano radicado nos Estados Unidos Arjun Appadurai, que problematizam os conceitos de progresso social e identidade – muito importantes no pensamento ocidental -, promovendo uma rediscussão a partir das formas de vida dos países colonizados. Para uma discussão mais aprofundada sobre esses dois autores, sugiro a leitura da série de comentários Diásporas, Identidades e Renegação do Determinismo no blog Canto Geral, de Jorge Jresissati (http://www.sparsksjrs.blogspot.com).
A produção literária pós-colonialista em prosa e verso começou a ganhar destaque no Brasil e mundo inteiro. Algumas editoras nacionais vem investindo nesse segmento. Um dos maiores sucessos é o livro O Caçador de Pipas, do escritor afegão radicado nos EUA Khaled Hosseini, editado pela Nova Fronteira, que já vendeu 1 milhão de cópias no Brasil desde o seu lançamento, em outubro de 2005. No vácuo desse sucesso, a editora aposta em outros títulos como A Distância Entre Nós (da indo-americana Thirty Umrigar), e The Beautiful Things That Heaven Bears, da escritora etíope-americana Dinaw Mengestu. Nos próximos meses, a Record – uma das maiores editoras brasileiras – vai lançar no mercado títulos como Wie der Soldat das Grammofon do croata radicado na Alemanha Sasa Stanisic, e Maps for Lost Lovers do paquistanês Nadeem Aslam, que atualmente vive na Inglaterra.
A prova do interesse das editoras por esse filão está na grande presença de escritores como o moçambicano Mia Couto e os sul-africanos J.M. Coetzee e Nadine Gordimer na Flip desse ano. Aliás, a editora Gryphus também tem procurado entrar nesse nicho ao publicar autores como o angolano José Eduardo Agualusa e o mexicano Guilhermo Arriaga, que também estarão presentes na Flip. Agualusa já teve seis livros publicados no Brasil, sendo que o romance O Vendedor de Passados vendeu mais de 7 mil cópias desde o seu lançamento, em 1999. Já Arriaga, ex-roteirista do cineasta espanhol Alejandro González Iñárritu (Amores Brutos, 21 Gramas, Babel), teve o seu livro Um Doce Aroma de Morango lançado em abril desse ano.

A Gryphus tem uma coleção dedicada a escritores de língua portuguesa – mas que não são brasileiros – intitulada Identidades – Nossa Língua. A previsão para 2008 é o aumento nesse filão, com a editora lançando A Trança Feiticeira de Henrique de Senna Fernandes, escritor de Macao – ex-colônia portuguesa na China.
Graças a essas iniciativas, o leitor brasileiro pode ter acesso a esse novo tipo de produção literária. Pelo visto, o interesse pelo exótico, pela alteridade e pela diferença está em alta…
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