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DICA DE CD – J.J. CALE & ERIC CLAPTON: The Road To Escondido

A América… Ah, a América…
Tão incensada e decantada pelas suas tradições culturais, e tão criticada pela sua cultura individualista, competitiva, puritana, hipócrita, focada apenas no dinheiro e no sucesso pessoal. Os EUA são complexos, e tentar entendê-los pelo prisma de uma única visão monolítica é cometer um verdadeiro crime contra a diversidade. Cidade versus campo, litoral versus interior, arranhas-céus versus fazendas, religiosidade versus promiscuidade, tudo isso constituiu o mosaico de hábitos, gostos, preferências, crenças e valores que é a América. Só estando lá para atestar isso que eu estou falando…
Sou fã da contribuição norte-americana à música mundial, especialmente a de natureza popular. Nada contra o gênero erudito, mas é no âmbito do cancioneiro popular e da música pop que os EUA se afirmam como grandes produtores e disseminadores de novas formas de expressão musical. Afinal, os estilos estão aí para provar o que eu estou dizendo: jazz, blues, folk, música country, o rhythm and blues, rock and roll, funk, rap, hip-hop…
Apesar de inglês, Eric Clapton é talvez um dos maiores guitarristas “brancos de alma negra”. Clapton surge no cenário musical em plena efervescência dos anos 1960, como guitarrista do Yardbirds. No entanto, seu nome é entronizado no panteão dos deuses da guitarra quando integra um dos maiores e mais sensacionais power trios de todos os tempos – o Cream – junto com outros dois monstros da música: o virtuoso baixista Jack Bruce e o excepcional e incomparável baterista Ginger Baker.
Findo o trio, Clapton envereda por uma bem sucedida carreira solo apoiada em hits como Layla, I Shot The Sheriff, Tears In Heaven, Running on Faith, dentre outros. A sua lendária rivalidade com outro gênio da guitarra – Pete Townshend do The Who – faz parte do folclore do rock, alimentada sem sombra de dúvida pelos grafites que os garotos ingleses pichavam nas paredes com a inscrição Clapton is God (“Clapton é Deus”)…Noves fora, Eric Clapton é um dos maiores guitarristas vivos, sendo inspiração para milhares de garotos que todos os dias dedilham as suas Fenders Stratocasters brancas em busca de seus riffs poderosos e solos matadores!
Nos últimos anos, após uma carreira bem sucedida tanto musicalmente quanto financeiramente, o guitar hero resolveu gravar aquilo que sempre gostou. Promoveu a volta do Cream, a partir de reunião até então improvável com os integrantes originais para uma sequência inspiradíssima e tocante de apresentações que geraram um disco ao vivo e um DVD. Paralelamente, gravou uma série de discos cuja referência é a sua eterna inspiração musical e artística: o blues.
Clapton sempre que pode diz que só se tornou guitarrista graças à inspiração de blueseiros negros de altíssima estirpe como Robert Johnson (sua declaradíssima influência!), Muddy Waters, John Lee Hooker, Albert King, Blind Lemon Jefferson, dentre outros. Essa fase gerou uma leva de trabalhos maravilhosos inicados pelo mega-premiado Unplugged (1992), e depois, na sequência, From The Cradle (1994, só clássicos, um primor de disco!), Riding With The King (2000, excepcional disco gravado em parceria com um dos últimos bluesman vivos, o simpaticíssimo e carismático B.B. King) e Me and Mr. Johnson (2004, uma tocante homengem a quem mais o inspirou, o lendário e misterioso blueseiro Robert Johnson). Enfim, é uma sequência digna tanto de um deus da guitarra quanto de um músico que não nega as suas raízes musicais.
Eis que o nosso herói retorna com mais um disco “matador”: The Road to Escondido (2006), em parceria com o fera americano da guitarra J. J. Cale. Cale é um cara gente boa, meio low profile, que gosta de ser alternativo e esquisito. Avesso a todo e qualquer tipo de modismos e ao esquemão da indústria musical, ele é o criador do chamado Tulsa Sound, um mistura criativa de blues, country, folk, jazz e rockabilly. Sua sonoridade é simples, inteligente, limpa e sofisticada. Além disso, o cara influenciou um monte de gente boa na maneira de tocar como o Mark Knopfler, Neil Young e Brian Ferry. Por essas razões, as músicas de Cale são cultuadas e frequentemente interpretadas por artistas do calibre de Johnny Cash, Kansas, Lynyrd Skynyrd, John Mayall, Sergio Mendes, Santana, Tom Petty, dentre outros… O próprio Clapton fez um enorme sucesso cantando (e tocando) duas composições clássicas de Cale – Cocaine e After Midnight.
Em si, o disco é um primor! Quando da primeira música – Danger, composição de Cale – já fica claro o casamento perfeito entre a guitarra pura, lenta e crua de Cale com a sofisticação jazzística e blueseira de Clapton. É paixão à primeira vista! Depois, as músicas vão se sucedendo umas as outras em uma sequência maravilhosa, uma verdadeira aula do som sulista e interiorano do good old blues, mesclando influêncas da música country, folk, rockabilly e rock and roll. Enfim, um disco puro, simples, direto e ao mesmo tempo sofisticado e refinado… O toque de sofisticação está na levada jazzística de algumas composições, além dos improvisos de guitarra, harmônicas e órgão hammond, o que dá uma sonoridade absolutamente peculiar e indescritível ao disco – semelhante a uma banda tocando em barzinho na beira da estrada…
Não destaco nenhuma música em especial. Ouçam todas, e tirem as suas conclusões!Embarquem na viagem dessa América interiorana, blueseira, descompromissada e altamente emotiva, que subjaz Escondida sob verniz da música dos grandes centros urbanos. É a música da Georgia, do Alabama, do Tennessee, do Kentucky, de Memphis, do Mississipi, do Missouri, de New Orleans e do Texas. Mas é também música de Chicago, de New York, de L.A., de San Francisco, de Boston, de Baltimore…
É um mergulho musical na América…
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