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SESSÃO DE CINEMA – "PARIS, TEXAS"

Finalmente saiu em DVD um dos filmes mais impressionantes que já vi: Paris, Texas (1984) de Wim Wenders, um dos meus cineastas favoritos, que esse Escriba já incensou em alguns posts anteriores. O roteiro é do escritor norte-americano Sam Shepard, a partir da fusão de dois livros de sua autoria – The Odyssey e Motel Chronicles. Durante uma certa época, pensava que Asas do Desejo era O filme; agora confesso que ambos são geniais, mas Paris, Texas é incomparável…

A cena inicial do filme é impactante: um andarilho com cara de maluco, vestido com um terno preto surrado e um boné de beisebol, todo amarfanhado, andando a passos largos e decididos em direção ao nada, na imensidão do deserto tendo como pano de fundo as formações rochosas do Grand Canyon… A insignificância humana, a busca (ou melhor a ausência) de sentido, o vagar a esmo, enfim estão presentes todos os elementos que compõem um cenário metafórico da pós-modernidade!

Wenders, como todos sabem, é um aficcionado pelos EUA, e este é um dos filmes mais americanos dele. Claro, ele não retrata a América do consumo, dos vencedores, dos endinheirados e dos arrogantes, mas sim o país dos grandes espaços vazios, dos loucos, dos desperados, dos desencontrados, dos angustiados, dos losers… É a América do interior, hostil e ao mesmo tempo bela, que faz os homens enlouquecerem, na busca de tentar entendê-la em suas nuances e matizes. A América de Wenders está lá, ao seu modo, na espelunca perdida no meio do nada, nas paisagens desérticas, na Águia que sobrevoa a paisagem lunar, nos letreiros dos motéis na beira da estrada, nas highways onde os carros vagam de um lugar para outro, no loucos que gritam no alto de viadutos, perdidos, pregando o fim do mundo, na bandeira americana no casaco, na parede, nos mastros…
Nesse filme, o personagem central – Travis (Harry Dean Stanton, magistral na interpretação!) – é uma espécie de cowboy que saiu de cena… Vaga a esmo, perdido, ausente deste mundo, em fuga sem dar uma palavra, uma pista, uma indicação de sua origem, paradeiro ou história. Enfim, um homem em busca do sentido original da vida, isto é, da sua vida… A única indicação: uma foto de um terreno no meio do nada, em uma cidade (Paris, no Texas, daí o nome do filme) no qual o mesmo foi concebido…
Em sua odisséia, espécie de Ulisses pós-moderno que vaga ao sabor dos deuses, tal como um fantasma, Travis reencontra seus laços familiares: seu irmão, sua cunhada e seu filho, criado por estes após sua separação de Jane (a belíssima Natassja Kinsky, em versão triste). É o seu filho que o faz rememorar dos episódios anteriores, preenchendo as lacunas provenientes de um “apagão mental”, fruto do trauma da dor da separação, do lar desfeito, das esperanças arruinadas…
O filme têm várias cenas memoráveis. Mas, para o Escriba, a melhor de todas é o “encontro” de Travis e Jane no peep-show. Separados de fato e fisicamente (pelo vidro de espia, apenas a voz de ambos entabulando o diálogo), os dois falam sobre as suas expectativas frustradas, suas dores, amarguras e desencontros. A solidão de ambos é pujante, e é impossível não deixar-se tocar pela solidão de ambas as personagens. A imagem dos dois projetadas no vidro do peep-show é de uma densidade poética memorável. É a imagem atemporal da solidão, encaixe perfeito para quem já passou por uma separação e sentiu as suas dores… Jane é especialmente bela, uma versão melancólica de Marylin Monroe, perdida, doída, vazia… Uma das cenas mais lindas que já vi em toda a minha vida!
O filme termina como começou: Travis, o nosso argonauta do Oeste, vagando em meio ao nada da cidade, com sua angústia expressa no rosto tenso, envelhecido, amargurado, acentuado pelo vermelho dos letreiros projetados em sua imagem! Enfim, um cowboy que saiu de cena como entrou: mudo, triste, perdido…
Para mim, o filme é a expressão máxima da solidão, do desencontro entre as pessoas, e do que resulta desse desencontro. No anos 1980, o filme foi aclamado por expressar uma espécie de zeitgeist de um momento histórico onde tudo era pós: pós-história, pós-moderno, pós-mídia, pós-concreto… Não é à toda que a película conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, e muitos aficcionados a consideram como a obra-prima do cineasta.

A trilha sonora do filme, então, é um caso à parte! É composta pelo californiano (e de alma blueseira) Ry Cooder, mesclando influências do country e do blues. Essa foi o início da colaboração entre o músico e o diretor, que gerou outros frutos como as trilhas sonoras de O Fim da Violência (1997) e Buena Vista Social Club (1999), ambos de Wenders. A trilha se baseia na composição “Dark was the night, cold was the ground”, do bluseiro texano e afro-americano Blind Willie Johnson. A trilha é tocada em grande parte em slide guitar, cuja técnica – muito utilizada pelos blueseiros – consiste em deslizar nas cordas de aço do violão objetos como copos, garrafas e pedaços de aço, dando uma sonoridade rascante, doída, sofrida, a base de notas alongadas.
A música do filme é americana até à medula, pois o blues é a expressão da dor, do vazio, da desesperança e da solidão que os healers, shouters, preachers e desperados sentem, seja nas plantações de algodão do Alabama, na vastidão do deserto de Mojave ou na imensidão dos arranhas-céus de Houston… Trilha para comprar, ouvir e deixar-se levar pelos sentimentos daí evocados. Recomendo aceitar a seguinte receita: blues é para se escutar com uma boa dose de bourbon ou um scotch, ou um copo de cerveja…

Vi, revi e verei várias vezes enquanto a vida me permitir! É o tipo do filme complexo, denso, lento, onde a cada exibição a tessitura poética nos permite entrever a polissemia dos signos evocados… Tal como uma flor do deserto…

Memorável…
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Categorias:Cinema, Cult, Wim Wenders
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