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A RICHARD RORTY, O MEU MUITO OBRIGADO…

Final de domingão! Hora de arrumar a bolsa de trabalho para a semana, de organizar os papéis, de dar uma olhada na agenda da semana… E um dos passatempos prediletos deste escriba é o de ler jornais atrasados! Antes tarde do que nunca! Afinal, muito papel se acumula, os amigos querem nos ver no final de semana, e todo um planejamento de trabalho vai por água a baixo… Menos mal, pelo menos eu revejo as pessoas, saio de casa um pouco e me distraio!
Leio O Globo de sábado, e me deparo com um artigo no caderno Prosa & Verso sobre o falecimento do filósofo norte-americano Richard Rorty no último dia 8 de junho, aos 75 anos de idade – muito bem escrito por sinal! Sou tomado por uma onda de choque em dois sentidos: primeiro, por não ter tempo suficiente de acompanhar com mais assiduidade a trajetória de vida dos pensadores atuais; segundo, por uma grande tristeza pelo fato de Rorty ter sido um dos pensadores que promoveu uma virada radical em minha forma de pensar as questões da subjetividade e da constituição filosófica das ciências e saberes psi.
Seu passamento é, no mínimo, uma lástima, uma perda muito grande em um mundo onde o pensamento se torna cada vez mais objeto de consumo, e menos uma ação reflexiva e fundante da existência humana.
Conheci o trabalho de Rorty no início de meu Mestrado na PUC, lá pelos idos de 1992, por indicação da minha querida orientadora Anamaria Coutinho. Como meu trabalho era sobre Ciência Cognitiva, Anamaria me indicou a leitura de sua obra seminal – pelo menos em meu entendimento – intitulada A Filosofia e o Espelho da Natureza, de 1979. Lá, especialmente nos primeiros capítulos, o autor empreende uma desconstrução do modelo de subjetividade mentalista dominante durante uma longa tradição filosófica que vai desde Platão, Santo Agostinho, Descartes, Locke até os tempos atuais.
Sua crítica se inspira na Filosofia Analítica de origem anglo-saxã, especialmente influenciada pelas obras de Ludwig Wittgenstein, John Langshaw Austin, Wilfird Sellars e W.V. Quine. Aliás, foi por intermédio dele (e da Anamaria, é claro!), que decidi enveredar pela obra de Wittgenstein, um dos autores que mais impacto exerceu (e continua exercendo) em minha trajetória intelectual. Graças a Rorty, também fui estudar Austin, Ryle, Quine, me tornando um aficcionado da questão da linguagem e da cognição. Também graças a ele, escrevi a minha dissertação de Mestrado, e logo depois entrei para o Doutorado a fim de aprofundar estas questões.
Não é à toa que, algum tempo depois, resolvi escrever um livro só sobre esta temática (Linguagem e Cognição, Editora LTC, 2006), tamanho foi o impacto que os escritos de Wittgenstein, Austin, Rorty e a Ciência Cognitiva tiveram em minha formação!
Confesso que me interessei pelo desenvolvimento inicial de sua obra, cujo fulcro é o Pragmatismo, uma das correntes filosóficas mais importantes do século XX, e uma enorme contribuição da filosofia norte-americana para o pensamento contemporâneo. Seu lugar neste debate pertece a uma linhagem de pensadores norte-americanos de alta estirpe, como William James e John Dewey. Rorty foi uma figura importante no renascimento da filosofia no mundo anglo-saxão, em grande parte graças aos debates na Filosofia da Mente, Filosofia da Linguagem e Ciência Cognitiva. Foi contemporâneo de outros pensadores importantes como Donald Davidson, Hillary Putnam, John Searle e Daniel Dennett, e sua crítica ao mentalismo subjetivista desenvolvida em sua famosa “metáfora especular da mente e da realidade” até hoje se apresenta como um poderoso argumento contrário à Ciência Cognitiva.
Mais tarde, seu pensamento fez uma inflexão em direção à filosofia continental e a autores como Nietzsche, Heidegger, Freud, Habermas. Sua orientação política liberal, influenciado por Trotsky, o fez não apenas dialogar com os descontrutivistas franceses (Derrida e Lyotard), como também lhe fazia ver no pensamento um instrumento organizado de manifestação politica contra a opressão e a favor da civilização humana. Sua pequena e elucidativa autobiografia – Trotsky and the wild orchids, de 1993 – nos serve como uma ilustração da influência de pensadores tão valiosos em toda a sua obra.
Essa homenagem tão singela a um autor importante do pensamento contemporâneo me faz recuar uma década no tempo, onde o ambiente intelectual em que eu estava fervilhava ao redor de suas idéias. Me vêm à memória as aulas na PUC, os debates no IMS da UERJ com Jurandir Freire Costa e Benilton Bezerra, o frisson causado por um novo texto de sua autoria… e, é claro, das minhas longas e memoráveis conversas com a Anamaria!
Tempos que não voltam mais, mas que me fazem lembrar que já tenho algumas estórias para contar…
Muito obrigado Rorty, por me ter feito companhia durante todos esses anos. Aproveite, e dê por mim um abraço no Wittgenstein, no Quine, no Austin, no Foucault, no Heidegger… e um beijo na Anamaria…
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