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SESSÃO DE CONTOS – "EFÍGIES"

As horas passavam depressa, severas e impacientes, no frio visor do relógio de quartzo barato, comprado para prevenir qualquer descuido quanto à hora. Horários, compromissos, reuniões, agendas… Mantenha-se ocupado, sempre ouviu de sua mãe, pois a melhor coisa é o cansaço – um bálsamo da vida, um preço a ser pago! Besteira, retrucou ele, a pressa é a marca de uma vida que se desfaz, fugidia, por entre os dedos assaz trêmulos, procurando sempre algo que falta, erra e desanda…

Sua mente produzia régios adornos no momento do crespúsculo – estado entre a vigília e o adormecimento -, espécie de clamor profundo, onde a tela do pensamento está povoada de riscos e rabiscos coloridos, croquis de uma tensa acomodação… Das brumas dos sonhos, uma tênue visão se abria esplendidamente: paraísos, conquistas, donzelas em busca de proteção, cheiros, sensações, intensidades, cuja paleta do espírito era incapaz de dar conta, tamanha a velocidade e a fugacidade dos recuos das recordações perdidas no umbral da memória… Inconvenientes, insistentes, irritantemente doces e amargos, lembretes dos fardos da vida, e de seu sabor agridoce.

Engraçada a vida, disse ele, perscrutando os seus pensamentos, que espiralavam-se pelo ar como vórtices de fumaça, se perdendo na imensidão do vazio da noite. Eu sou aquilo que se dissipa, se perde e se esvai… As minhas lembranças são como frascos empoeirados em uma prateleira de uma botica antiga, cujos nomes se confundem na passagem do tempo, memórias apagadas de etiquetas que se recombinam a partir de cenários diferentes, que existem desde tempos ancestrais…

Nascer é um paradoxo, viver é uma dormência, e a morte é uma vã ilusão de libertação… e é nesse palco que se descortina a trama da existência, urdida em um malha de amores, vícios, virtudes, ódios, honras e atitudes.

Será a memória um mosaico ou um calendoscópio? – perguntava ele, um tanto quanto inquieto… Carrosséis de minha infância urgem em ascender em meio a broquéis bizantinos, retirados de enciclopédias antigas que meu pai me ofertava quando menino!

Efígies perdidas na penumbra do alvorecer, entreato do ser e do ter, justamente no momento onde temos mais consciência da fugacidade da nossa existência… Hiato entre a lucidez e o desatino, umbral frio de nosso fosso, oco, ponte que liga uma esperança à vacuidade do nosso ser…

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Categorias:Meus contos
  1. Anonymous
    junho 20, 2007 às 5:15 am

    são 1:50hs da manhã..bom dia.rsss, aqui vai meu comentário sobre seu blog professor;Em primeiro lugar suas aulas são maravilhosas ficamos sempre com vontade de quero mais ,e em segundo lugar seu blog é um verdadeiro espetáculo inclusive seu texto sobre Loreena Mackennitt, que não ouvi ainda mais estou curiosa agora depois do texto que é um verdadeiro poema … e como dizia Beethoven “A música é uma revelação mais elevada do que a filosofia” vc conseguiu passar o sentimento da musica , Arpas hummm arpas o som realmente celestial.
    Ja o comentario sobre os contos bom…quero o livro! para mim qualquer tipo de expressão de arte só tem sentido quando vem acompanhada de um sentimento , se não me passa nada , se não me diz nada não importa quem escreveu ou quem pintou ou quem criou, vai ser mais um conto , mais um quadro ,mais uma roupa , e os contos me passaram lembranças em um pequeno pedaço e isso foi muito bom.
    Ahhh professor quem sou eu , mais para mim foi uma surpresa saber que o Ingmar Bergman era Noruegues para mim ele sempre foi Sueco, Vc tem certeza que ele é Noruegues?bom…ja esta tarde ..ou melhor falando cedo rsss preciso dormir bj sua aluna MKT-FGV Patricia Limia.

  2. José Mauro Nunes
    junho 20, 2007 às 12:28 pm

    Caríssima Patricia, bom dia!
    Muito obrigado pelos seus comentários, e fico muito feliz que você tenha gostado do blog, dos assuntos abordados. Realmente, como deu para perceber, sou um aficcionado por música, cinema e literatura, e este espaço procura dar vazão a estes sentimentos que na maioria das vezes não consigo abordá-los em sala de aula.
    Quanto ao conto, que bom que gostastes. Reconheço que ainda está um pouco primário, mas pretendo aprimorá-los com os próximos que publicarei no blog.
    E, realmente, vc. está certíssima: Bergman é sueco! Um pequeno lapso geográfico, que já corrigi no texto.
    Espero que visite mais vezes e deixe os seus comentários! Muito obrigado mesmo! José Mauro

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