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SESSÃO DE CINEMA – "INTERIORES"

Acabei de rever um dos magistrais filmes do cineasta americano Woody Allen: Interiores, de 1978. Digo que revi, pois o vi pela primeira vez no final dos anos 1980 e fiquei profundamente impactado pela história e a densidade da trama. Pois bem, resolvi revê-lo para ver se alguma percepção minha tinha mudado…
Realmente, mudou… Para muito, mas muito melhor…
Interiores é um dos filmes que a gente pode dizer que nos marca profundamente, e que nos surpreende cada vez que o revemos. Para mim, é um dos filmes fundamentais de minha vida, instante fundante de minha trajetória intelectual e vivencial!
Nesse filme, Woody Allen assume descaradamente a influência do cinesta sueco Ingmar Bergman – um dos gigantes do cinema mundial. Interiores é assim: denso, profundo, existencialmente tenso, controlado e, profundamente superlativo!
Desculpem, meus leitores, por ser tão idólatra! Mas, sejam indulgentes por um mísero instante: trata-se de um filme fundamental, uma obra-prima!. A história do fim de um casamento envolvendo uma designer de interiores metódica e ideal e um homem pragmático, ambos no outono da vida é algo, por si só, da ordem do clichê. Além do mais quando as três filhas do casal, devidamente adultas e vacinadas, resolver remoer as suas culpas em um complexo de dor e acusações mútuas.
Mas, eis que ocorre a marca da genialidade. O cineasta aborda magistralmente esta trama, a partir do entretecimento de histórias cruzadas de dores inauditas, de sofrimentos silenciosos e de acusações interditas e insuportáveis. Trata-se de um mosaico de fracassos projetados, projetos abortados, encontros sempre faltantes, tramas sempre desfeitas a espera de serem re-reconstruídas, para depois serem sabotadas e desfeitas pelos próprios protagonistas…
A beleza estética do interior da casa, sempre bela e impecavelmente ordenada, contrasta com a aridez e a tensão contida nas relações entre as personagens. A esterilidade do vazio interior contrasta com a sofisticação e o requinte do interior “exterior”. Identificações com a mãe, preconceitos contra a futilidade, expectativas frustradas de genialidade, fracassos e desencontros, tudo inerente a comédia (e a tragédia) da vida humana… Só que, dessa vez, projetadas na tela, na sala de estar, na janela para o mar, no olhar melancólico e tétrico das personagens, como se o mundo fosse uma enorme irrealidade prestes a desabar…
Toda a vez que vejo esse filme, é impossível não associá-lo a uma poesia de João Cabral de Melo Neto. Por mais que se tente (e se imagine), o real é áspero, espesso e tem arestas…
Pulsão de vida e Pulsão de morte convivem nesta peça de teatro transposta para a tela, tal como numa dança contida e tétrica, onde a beleza estética, tal como em uma natureza morta ou em uma marina em cinza matizado, em sua vacuidade anódina, contrasta com a pulsação da vida, a vontade de viver, o impluso à felicidade, o simples prazer de arriscar e não se deixar emparedar pelas angústias da vida…
Paro de escrever, pois o avançado da hora entorpece os meus sentidos, e torna tênue o meu discernimento. No entanto, faço aqui a elegia: é um dos filmes mais significativos e importantes que já vi em toda a minha vida!
É uma bela ilustração de como as pessoas rumam à ruína e ao precipício, de como as pessoas teimam em fracassar, e de quando tudo parece conspirar para o contrário. A pergunta insistente é: porque as pessoas teimam em ser infelizes? Porque nós somos morbidamente obcecados pelos fantasmas de outrora, e pelos fracassos de hoje? Woody Allen é um dos mais psicanalísticos (e psicanalisados!) dos cineastas, mas talvez esse seja um de seus filmes mais freudianos.
Pois, como diz o argonauta das profundezas da psiquê, o neurótico sempre sofre de reminiscências…
Imperdível! Belíssimo! Uma verdadeira obra-de-arte!
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Categorias:Cinema, Cult, Woody Allen
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