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SESSÃO DE CINEMA – "ASAS DO DESEJO"

Pois é, o frio nos faz ficar em casa e fazer coisas que, dada a correria diária, nem sempre tenho tempo. Adoro ir ao cinema, mas em tempos de blockbusters, não sinto a menor vontade de ir… Me desespero em pensar que no mundo só há Homem-Aranha, Piratas do Caribe e outros congêneres… O que mais me chama a atenção são alguns filmes brasileiros recentes, mas o preço do ingresso em um multiplex daqueles “muderninhos” me faz preferir ir ao teatro, ou a um bom restaurante. Sem falar no estacionamento, na pipoca, no refrigerante…um assalto!

No entanto, gostaria de ressaltar que adoro cinema. Graças à divina providência, habemus DVD. Assim, posso comprar (ou até mesmo alugar) filmes que tenham me impressionado. No meu caso, como bom cinéfilo dos anos 1980, cresci assistindo os filmes europeus “cabeça” que passavam na Estação Botafogo – point cult em minha época de universidade. Era para lá que eu rumava quando o professor faltava, ou quando havia uma aula chata lá na UFRJ da Praia Vermelha.

Foi nesta época que eduquei a minha percepção assistindo películas de diretores como Federico Fellini, Woody Allen, Peter Greenaway, Ingmar Bergman, Fassbinder, Carlos Saura, David Cronenberg, Jim Jarmusch, dentre muitos outros… e, para mim, o maior ícone da minha geração: o cineasta alemão Win Wenders.

No meu blog anterior, já falei dele e de como os seus filmes foram importantes para a minha formação intelectual. Não dá para entender a pasmaceira dos anos 1980, a melancolia de fim de século, o fim do mundo pré-Muro de Berlim, o questionamento inesgotável da falta de sentido, do vazio da existência, a ansiedade contemporânea de que tanto nos fala Walter Benjamin sem pensar em suas histórias.

Como está saindo a coleção completa dele em DVD, estou comprando aos poucos os seus títulos. E revi ontem um dos filmes que eu considero (aliás, toda a crítica) o mais importante da sua carreira. Trata-se de Asas do Desejo (Wings of Desire, de 1987).

O filme é uma fantasia sobre anjos que escutam a tristeza, o desespero e o vazio humano no mundo terreno. Como habitam um outra dimensão, não podendo então interferir, esses anjos se tornam espectadores passivos – verdadeiros voyeurs do sofrimento humano. Por eles, desfilaram (e desfilam) milênios da vida na terra, estórias de comédias e tragédias! São estórias simples, corriqueiras, pungentes de pessoas comuns e seus dramas de cada dia, mas de uma densidade poética de doer…

O velhinho contador de estórias é uma daquelas que me faz chorar sempre, não importa quantas vezes eu veja!

Também quando a trapezista Marion (Solveig Dommartin, lindíssima!) sofisma em monólogo – “Sou estrangeira, mas sinto que todos são meus semelhantes!” – é de uma crueldade poética indiscutível!

A história fica mais interessantes quando um dos anjos (Damiel) se apaixona por uma trapezista de circo, e resolver “pagar para ver” e levar à frente o seu desejo…

É um típico filme dos anos 1980: lento, denso, poético, alegórico. Nada de explosões, diálogos rápidos, efeitos especiais, lutas, videogames e outros atrativos. A fotografia do filme (quase toda em preto-e-branco) é belíssima, e adensa o efeito alegórico requerido pelo diretor. Os diálogos são de uma densidade filosófica belíssima, mas ouvidos pouco avisados podem achar que se trata de uma verborragia sem sentido. O cenário é uma Berlim estacionada entre o fim da Segunda Guerra Mundial e a queda do Muro. Uma cidade rachada, perdida, em ruínas, plena de lamentos e lembranças em meio aos escombros físicos, psíquicas e das recordações de seus habitantes…
Os anjos Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sander) são fantásticos, com seus silêncios, olhares e seu aspecto pós-punk reforçados pelos trenchcoats pretos (que se tornarm um objeto de desejo para mim – não sosseguei até comprar um!). O Inspetor Columbus (Peter Falk), como o anjo caído e ressurecto, é um achado.
Enfim, o filme é uma bela homenagem ao otimismo de viver. Se puder não deixem de ver e de se emocionar…
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Categorias:Cinema, Cult, Wim Wenders
  1. ilka porto
    junho 4, 2007 às 2:24 pm

    Eu também estive com Win Wenders na última semana. Vi “O céu de Lisboa”. Também pode se dizer que é uma ode ao otimismo e uma homenagem ao cinema. Quando tudo parece ter pedido o sentido, eis surge algo que possibilita um novo brilho no olhar. Fotografia maravilhosa. Lindo filme. Como diz um trocadilho infame: “Win wenders e aprendenders”. rsrsrs abs!

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