Estudo recente realizado pelo pesquisador Marcelo Neri, da FGV, mostrou que a crise econômica atingiu de maneira diferenciada a pirâmide de renda brasileira. Nesse caso, o impacto apurado foi muito maior nos segmentos mais ricos em comparação aos estratos menos favorecidos localizados na base da pirâmide.
Segundo a pesquisa, de janeiro a abril desse ano a renda média individual dos integrantes das classes A e B, habitantes das seis principais regiões metropolitanas do país (São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Algre, Belo Horizonte, Salvador e Recife), caiu 8,7% em comparação ao mesmo período apurado em 2008 – de R$ 2.637 para R$ 2.407. Vale lembrar que, já em 2008, a renda desses mesmos indivíduos caiu cerca de 7,01% em comparação aos números de 2007.
Em compensação, a classe C – que vem sofrendo o maior impacto desde o início da crise no segundo semestre do ano passado – vem apresentando uma recuperação animadora. A renda média dos indivíduos dessa classe subiu 3,9% entre janeiro e abril desse ano, em comparação aos dados de 2008 – de R$ 625 para R$ 649. Em 2008, a classe C já apresentava um aumento da renda média individual de cerca de 6,12%.
A explicação para este impacto diferenciado é clara: a renda das classes A e B é mais dependente dos setores mais internacionalizados – portanto, mais sensíveis à crise – da economia brasileira, enquanto que a renda da classe C é mais dependente das condições do mercado interno, menos afetado pelos acontecimentos mais recentes. A crise afetou mais os empregos vinculados aos setores industrial e financeiro, onde se encontram a maior parcela dos empregos dos segmentos mais privilegiados da pirâmide de renda. Em contrapartida, os rendimentos da classe C estão atrelados ao salário mínimo, que vem sofrendo reajustes significativos acima da inflação, o que explica em grande parte este fenômeno de “blindagem” da renda contra a crise econômica global.