01.30.08

40 ANOS APÓS 1968: E DAÍ?

Enviado em Ciência Política, Eventos, Guerras, História Contemporânea, Jovens, Sociologia às 10:36 am por Jose Mauro Nunes

Há uma tese bastante interessante, que circula entre acadêmicos e jornalistas, que o ano de 1968 ainda não acabou, tamanha a sua importância para os destinos da sociedade ocidental. Para muitos, a década de 1960 foi uma das mais criativas e combativas da história recente, tendo a juventude um papel fundamental como vetor de contestação, reinvindicação e difusão de uma nova mentalidade. Valores que consideramos atuais como a preocupação com o meio ambiente, a responsabilidade social, a denúnica do política e dos políticos e um senso de engajamento com o destino global da humanidade são a principal herança desse período, construída em grande parte a partir da luta dos jovens nas barricadas montadas nas ruas de Paris, nos protestos nos campi universitários norte-americanos e nas passeatas em frente ao Pentágono e a Casa Branca.

Para quem é fã de música, como esse Escriba, os anos 1960 foram imperdíveis. Teve para todos os gostos: a revolução lisérgica dos Beatles, a psicodelia “viajandona” de bandas como Grateful Dead e Jefferson Airplane, a poesia bukovskiana de Jim Morrison e o seu The Doors, a voz rasgada, bluesy, alcoolizada e melancólica de Janis Joplin e os imortais solos de guitarra do incomparável e único Jimi Hendrix. Também foi o momento da eclosão de bandas que marcaram época na história do rock, algumas bem efêmeras (como o genial power trio britânico Cream, com os “monstros” Jack Bruce, Eric Clapton e Ginger Baker) e outras mais longevas como Pink Floyd, The Who, Led Zeppelin, todas provenientes do outro lado do Atlântico, que conquistaram de assalto a América e o mundo.
Tempos de “bolachas” memoráveis. Vejam só: Beatles (Sgt. Peeper’s Lonely Hearts Club Band, 1967), Jimi Hendrix (Are You Experienced?, 1967; Axis: Bold as Love, 1967; Electric Ladyland, 1968), Cream (Fresh Cream, 1966; Disraeli Geers, 1967; Wheels of Fire, 1968), The Doors (The Doors, 1966; Strange Days, 1967), Pink Floyd (The Piper at the Gates of Dawn, 1967; A Saucerful of Secrets, 1968; Ummagumma, 1969), The Who (My Generation, 1965; Sell Out, 1967; a ópera-rock Tommy, 1969); Led Zeppelin (I & II, ambos de 1969); Carlos Santana (Santana, 1969); Miles Davis (Miles Smiles, 1966; Sorcerer & Nefertiti, ambos de 1967; In a Silent Way & Bitches Brew, ambos de 1969); John Coltrane (A Love Supreme, 1964; Ascension & Meditations, ambos de 1965; Expression & Interstellar Space, ambos de 1967). Isso sem falar nos festivais pop memoráveis como os de Monterrey, Woodstock, Ilha de Wight
No entanto, como toda década polêmica, para muitos 1968 foi o marco de abertura da Caixa de Pandora. Afinal, a grande marca da geração hippie, o uso de drogas como a maconha e o LSD, que inicialmente prometiam abrir as “portas da percepção” (Aldus Huxley) para uma nova dimensão da experiência humana, tornou-se mais tarde um veículo de alienação e cinismo. De uma certa forma, o fracasso dessa geração e de seus heróis – Hendrix, Joplin e Morrison -atormentada por seus fantasmas pessoais e arruinada pelo abuso de álcool e de drogas, proporcionou o surgimento de uma nova juventude a partir dos anos “loucos” de 1970, marcada pelos signos da alienação, do cinismo e do hiper-individualismo, alavancados pela Sociedade de Consumo, cuja herança respinga em nós até os dias de hoje.
O mais interessante deste debate é o paradoxo que emerge a partir da análise crítica desses tempos turbulentos, porém simultaneamente criativos e destrutivos. Parece que essa geração implodiu pela própria impossibilidade de suas demandas, resumida em uma sentença emblemática que foi “pichada” em um banheiro de uma universidade francesa em maio de 1968: “Seja realista, peça o impossível!”. Com uma visão romântica dessas, não há projeto político que se sustente além de um verão…
O caráter trágico dessa geração me faz pensar em um dito judaico, o de que “Deus fecha uma porta e abre outras várias ao mesmo tempo, só para nos confundir”…
Citando uma famosa frase do escritor inglês Charles Dickens, “vivemos tempos muito difíceis”. Ano esse de 2008 em que uma presidência norte-america deletéria e nefasta se encerra, cujo maior mérito foi o de dar evidência e publicidade a sua antípoda – Osama Bin-Laden e o terror do fundamentalismo islâmico. E, mais uma vez, seja no Iraque, no Afeganistão, no Paquistão ou no Líbano, os EUA receberam a lição: a força do poder bélico é importante, mas não decisiva quando se trata de conquistar os “corações e mentes” de seus opositores. E nisso, as lições de 1968 parece que não foram plenamente absorvidas pela elite ianque. Daí, a importância de celebrá-lo, a fim de refrescar a nossa memória…
Há 40 anos atrás, mais especificamente em 31 de janeiro de 1968, mais de 70 mil vietcongs se insurgiram em 13 das 16 maiores cidades do Vietnã do Sul, além de atacarem centenas de povoados, no que entrou para os anais da história militar com o nome de Ofensiva do Tet – em homenagem ao ano novo lunar do calendário vietnamita -, o ápice da chamada “guerra de guerrilha”. A ousadia do ataque foi tão grande, que até a embaixada norte-americana em Saigon não foi poupada dos ataques.
Do ponto de vista estritamente militar, a Ofensiva do Tet foi um fracasso retumbante, posto que o número de baixas do lado vietnamita foi altíssimo – cerca de 40 mil mortos, contra apenas 2.500 baixas do lado norte-americano. No entanto, a ousadia do assalto atingiu o flanco mais vulnerável dos americanos: a opinião pública interna do país. A confiança norte-americana em um “passeio” nas selvas do Sudeste Asiático transformou-se drasticamente, esfarelando num piscar de olhos a trajetória de vários de seus luminares: o general William Westmoreland, comandante das tropas na região, o smart guy Robert McNamara, Secretário de Defesa, ambos destituídos de seus cargos, além da desistência do “bronco” Lyndon Johnson de concorrer à reeleição na Casa Branca.
Não bastasse o verdadeiro “terremoto” em Washington, a ofensiva recrudesceu os movimentos pacifistas em pleno solo americano, e o confronto dos jovens com a polícia aumentava de acordo com o número de caixões cobertos com a bandeira norte-americana contendo os soldados mortos no Vietnã. Graças ao general vietnamita Giap, a “névoa da guerra” de que fala Clausewitz foi levada aos lares americanos, via satéite, ao vivo e a cores…
Definitivamente, a Guerra do Vietnã foi perdida sobretudo no front interno, sendo decisiva a oposição feroz da mídia e da opinião pública. Bin Laden e os fundamentalistas islâmicos não esqueceram dessa lição, aplicando-a no Afeganistão, na Tanzânia, no Quênia e, fatidicamente, nos atentados de 11 de setembro de 2001…
Olhando prospectivamente, os jovens de outrora que lutavam nas barricadas armadas nas ruas de Paris ou nos campi das Universidades de Berkeley e Columbia, agora estão ausentes. Apatia, servidão, individualismo e depressão são alguns dos motivos apontados pelos pesquisadores para justificar a ausência de bandeiras a defender por parte da juventude de hoje. Como se os mesmos dissessem: “deixem-nos em paz, nós não estamos nem aí para o que vocês defendem ou valorizam”. O niilismo pós-punk (”I hate myself, I wanna die”), o cinismo regado a doses cavalares de drogas sintéticas (”Everybody sucks, everything is fucked”) ou o hiper-consumo alienante (”I’m a barbie girl, in a barbie world”) são as alternativas existenciais oferecidas nas prateleiras dos supermercados da vida…
(Não é à toa que o ídolo dessa nova geração, o também genial Kurt Cobain do Nirvana, que suicidou-se com um tiro na cabeça em abril de 1994, dizia que todas às vezes que ele estava triste, ele ia beber uma cerveja no túmulo do Jimmy Hendrix…)

Não é à toa que, no momento em que escrevo este post, eu estou ouvindo um disco do The Doors, intitulado Strange Days

1 Comentário »

  1. Anonymous disse,

    Oi Zé Mauro, tudo bem? Fui seu aluno no MBA em marketing na FGV de Porto Alegre. Gostei do blog, bem interessante, exceto a parte do flamengo. Pelo certo, deverias escrever bem a respeito do Grêmio. =)

    Preciso conversar contigo a respeito de uma coluna de comportamento numa revista de moda que estou editando. Tens como entrar em contato? Não consegui teu e-mail pelo blogger.

    Obrigado.

    Thomas Hartmann
    tomrs1@gmail.com


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