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É meus caros leitores, não bastasse a Copa do Mundo, os Jogos Olímpicos, a Gisele Bundchen, o apagão dessa semana que termina e o fato do Lula ser “o cara” (essa não, Obama!), a cada dia que passa a mídia mundial presta uma atenção cada vez maior ao nosso longínquo e afastado paraíso tupiniquim. Será que estamos definitivamente deixando de ser periferia para adentrar ao mainstream? Serpa que estamos nos tornando cools?

Para que os meus críticos leitores possam ter uma idéia do que eu estou a falar, a edição dessa semana do prestigiado e respeitadíssimo periódico britânico The Economist traz um dossiê analítico de 16 páginas sobre o Brasil. O meu aluno e atento leitor Gustavo Léo, da FGV de Botafogo, gentilmente passou por e-mail tal material, e pude perceber a partir de uma breve leitura que o dossiê analisa os motivos da atual proeminência econômica, financeira, social e cultural do Brasil no mundo globalizado.

Antes que façamos um Carnaval fora de época (na Bahia, diga-se de passagem, isso não existe!) e decretemos feriado nacional por uma semana, o dossiê é crítico e não esconde as mazelas de nossa sociedade, bem como da nossa economia e do nosso mal-afamado sistema político. ApJustificaresar disso, nota-se que o saldo é bastante positivo…

Sendo considerado o país que melhor resistiu ao teste de fogo imposto à economia mundial no final do ano passado, o Brasil entrou definitivamente na rota de interesse de investidores, pesquisadores e intelectuais do mundo todo pelos seguintes motivos: em primeiro lugar, a economia brasileira vem crescendo nas últimas décadas de forma consistente à taxas de 5% ao ano; em segundo lugar, é um dos maiores exportadores mundiais de commodities agrícolas e minerais, saciando a “fome” de gigantes como a China; terceiro, apesar dos nossos políticos-parasitas, é uma democracia consolidada sem conflitos étnicos ou religiosos de monta, nem é cercado por vizinhos hostis – tirando o “mala sem alça” do Hugo Chávez -, diferentemente de seus parceiros de BRIC como Rússia, China e Índia.

Além disso, é um porto seguro para os investidores estrangeiros, com marcos regulatórios e mecanismos de proteção consolidados, e vem apresentando uma melhoria significativa de seus indicadores sociais, dado o processo consistente de aumento do poder aquisitivo das famílias e de consumo por parte das classes econômicas menos favorecidas – as famosas classes C e D, que tanto falamos aqui no PRAGMA. Por fim, o Brasil possui um presidente proveniente dessas camadas mais pobres da população, de origem humilde e de baixa escolaridade, mas que é uma liderança política de esquerda porém pragmático, em comparação aos seus famigerados colegas de América do Sul. É por todos esses motivos que o Nosso Líder é visto com charme e simpatia por todas as lideranças políticas mundiais – o cara se dá ao luxo de conversar com Israel e o Ahmadinejad!!! Vocês querem o que mais?

Ou seja, queiramos ou não, gostemos ou não do Presidente Lula, nós estamos na moda! O que vai acontecer a partir daí, no entanto, só Deus sabe…

Enquanto isso, no ano que vem, em pleno ano de Eleição Presidencial, estréia o filme do Fábio Barreto: Lula – O Filho do Brasil. É mole ou querem mais???

No último mês, venho focando as minhas energias – ou tentando concentrá-las melhor! – em minha recente pesquisa a respeito dos jogos virtuais e seus impactos para a questão da construção e regulação da subjetividade. Este é um tema instigante, e que desperta a minha atenção desde o meu Doutorado em Psicologia, concluído no ano de 2000 na PUC-Rio, e que estou tendo a feliz oportunidade de retomá-lo aqui na Uerj com a formação de um projeto e um grupo de pesquisa bastante interessante e motivado e esse respeito.

Dentro das pesquisas que venho fazendo sobre a literatura sobre games, a referência a uma teoria a respeito da experiência subjetiva que ocorre na mente dos gamers é onipresente. Trata-se da teoria do “flow” - em uma tradução livre, algo como “fluxo” ou “estado de imersão” -, proposta pelo psicólogo norte-americano de origem húngara e professor da Universidade de Chicago Mihaly Csikszentmihalyi (pronuncia-se como “chick-sent-me-high”). Sua interessante teoria aborda o estado mental de um indivíduo engajado em uma atividade qualquer onde encontra-se complementamente focado, envolvido e energizado – tal como acontece nos jogadores de games. Para ele, estas são as características de uma atividade produtiva de “flow”:

1. Prontidão para a atividade.

2. Foco na atividade.

3. A atividade precisa ter metas claras.

4. A atividade precisa ter um feedback direto.

5. O indivíduo experimenta uma sensação de controle da atividade.

6. Suas preocupações e aborrecimentos desaparecem.

7. A experiência subjetiva de tempo é alterada.

Além disso, Csikzentmihalyi (nomezinho difícil esse, heinm?!) afirma que a experiência de “flow” está diretamente relacionada ao Desafio que a tarefa impõe e as Habilidades do indivíduo requeridas para tal. Quando o Desafio é maior do que a habilidade do indivíduo, o seu estado mental é de ansiedade seguida de frustração, levando-o a abandoná-la. Caso contrário, quando o Desafio é menor do que a sua habilidade, o indivíduo acaba enfadado e de “saco cheio”, levando-o também a abandoná-la.

Logo, a chave para a manutenção de um estado psíquico de “flow”, segundo o autor, é a busca de uma atividade que possa balancear estas duas variáveis, e que acabe proporcionando ao indivíduo uma situação que simultaneamente proporcione envolvimento e diversão, sem que o mesmo perceba a passagem do tempo. Evidentemente, tal experiência ocorre com bastante frequência em gamers quando estão em plena situação de imersão no jogo.

Em decorrência disto, divertir-se é o resultado direto de uma experiência de “flow”, produto de uma combinação fecunda entre o Desafio imposto pela tarefa e as Habilidades que o indivíduo possui. Bem entendido, a experiência de “flow – fun” (“fluxo – diversão”) pode ser obtida não apenas em situações lúdicas (seja individualmente ou em grupo, real ou em situações virtuais), mas também em atividades produtivas (trabalho e estudo), nas interações sociais cotidianas (reais e virtuais) e nas atividades de consumo. A chave para a superação dos males da contemporaneidade – leia-se, as sensações de enfado, de ansiedade e de frustração – passa pela promoção de estados de “flow-fun” cada vez mais instigantes, intensos e recompensadores.

Costumo dizer em minhas aulas que o sonho de qualquer professor é ter alunos tão interessados, energizados, motivados e participativos quanto os observados quando estes estão jogando, navegando na rede, teclando no MSN ou simplesmente alimentando suas redes sociais físicas e virtuais. Será que é possível criar situações educacionais que possam despertar nos alunos esses estados psíquicos?

E os meus leitores? O que acharam desta teoria? Será que vocês já tiveram esse tipo de experiência de “flow – fun” acima descrita? Elas são frequentes ou esporádicas? Em quais situações de suas vidas elas mais ocorrem?

Desculpem a série de perguntas, mas sou deveras curioso e instigado por estas questões. Logo, os comentários dos meus queridos e indulgentes leitores serão de extrema valia para a pesquisa que estou iniciando…

Os meus leitores que me acompanham a mais tempo podem estar estranhando a longa ausência de notícias sobre futebol aqui no PRAGMA, e mais especificamente, sobre o Flamengo – O Mais Querido do Universo. Afinal, após a humilhante vitória imposta sobre o Galo (quem?) em pleno Mineirão, com o Pet jogando horrores, o Adriano rompendo o lacre das defesas adversárias e o time no G-4, esse Escriba deveria estar nas nuvens! Correto?

Vejam o quão irônico é o futebol…

In my humble opinion, o atual time do Flamengo é bem mais fraco do que os dos anos anteriores. No entanto, o time tem se provado competitivo nesta reta final do Campeonato Brasileiro de 2009, e periga do Flamengo ganhar o caneco. Afinal, como afirma a filosofia popular, o Mengão é um clube que cresce no final de qualquer competição, e a torcida pode empurrar o time até lá!

Confesso que me darei o direito de reservar uma postura de silêncio obsequioso até onde eu puder – e o meu fanatismo rubro-negro me deixar! Mas que o sacode sem dó nem piedade que aplicamos no Galo em plena casa do adversário tem a pinta de campeão, ah isso tem!

Por enquanto, estou só observando! Mas, confesso, estou adorando! E muito…

UM CARRO PERFEITO!

A inovação e a criatividade parecem não ter limites mesmo! Vejam só a parceria anunciada entre a montadora francesa Renault e a Biotherm, a divisão de cosméticos de luxo do conglomerado L’Óreal. Quem diria que carros e cosméticos poderiam um dia se aproximar e formar um produto diferenciado…

O produto em questão é uma versão do carro-conceito da montadora francesa, o Zoe, que utilizará energia elétrica e ainda está em fase de conceito. O carrinho, intitulado Renault Spa, tem tudo para se tornar o sonho de consumo das madames e “patricinhas” preocupadas com a sua pele e o seu bem-estar, já que ele virá de fábrica com uma série de traquitanas denominadas de “ambientadores ativos”. Isto significa que, de acordo com a demanda do motorista, os tais “ambientadores” irão borrifar o habitáculo – e, por consequência, hidratar e envolver o condutor também – com diversas substâncias desenvolvidas pela Biotherm, como por exemplo: aromas revitalizadores pela manhã, desestressantes na volta do trabalho, de alerta para quem dirige à noite, além de umidificadores que impeçam hidratem constantemente a pele do condutor e a impeça de ficar ressecada. Não é o máximo do mimo?!

Agora, falemos a verdade: marketing não é o máximo? Parece que, com a crise, o pessoal de criação está se esmerando…

Ocorrida no final de semana passada mas só comunicada pelos familiares em Paris no dia de hoje, registro aqui o falecimento de um dos mais importantes intelectuais de todos os tempos, o antropólogo belga radicado na França Claude Lévi-Strauss - após 100 anos de vida.

Lévi-Strauss era o último remanescente de uma brilhante geração de intelectuais franceses dos anos 1950 e 1960 que gestaram o chamado movimento estruturalista – um paradigma filosófico robusto que influenciou todo um conjunto de estudos e pesquisas nos mais diversos ramos das Ciências Humanas e Sociais daquela época -, inspirados pela obra seminal do linguista suíço Ferdinand de Saussure e o seu clássico Curso de Linguística Geral. Tal como Michel Foucault na Filosofia, Roland Barthes na Semiologia e Jacques Lacan na Psicanálise, Lévi-Strauss foi responsável pela introdução do método estrutural no campo da Antropologia, entrando para a história como o fundador da escola da Antropologia Estrutural.

Junto com Saussure e Lacan, Lévi-Strauss era uma das pontas do triângulo intelectual que estudei de maneira muito intensa durante o meu curso de graduação em Psicologia na UFRJ no final dos anos 1980. Era a época da efervescência do pensamento francês na academia, além do momento onde a psicanálise lacaniana se insinuava no meio intelectual carioca. Dois de seus textos, publicados na coletânea Antropologia Estrutural I (Editora Tempo Brasileiro), foram importantíssimos em minha formação: “O Feiticeiro e Sua Magia” e “A Eficácia Simbólica“. Em ambos, o pensador analisava o efeito simbólico da palavra como transformadora dos estados corporais, a partir do estudo de campo com pajés (xamãs) da América do Sul.

Em um mundo onde a reflexão, a curiosidade e a análise crítica parecem ter cada vez menos espaço, é sempre bom ter alguém do calibre de um Lévi-Strauss para nos inspirar e incitar o pensamento. Mesmo que, porventura, possamos discordar de suas idéias, conforme foi o meu caso particular ao longo do meu percurso intelectual…

Apesar do aspecto dramático envolvido em qualquer crise econômica de gigantescas proporções – conforme a observada nos países do Norte desde o segundo semestre do ano passado -, é inegável que ela fustiga e incrementa a imaginação dos empreendedores e profissionais de marketing. Segundo um velho aforisma de marketing, enquanto numa crise uns choram os negócios perdidos, outros lucram vendendo os lenços que enxugam as lágrimas…

Vejam só o exemplo de criatividade em marketing descrito a seguir.

O caso em questão é a loja Esloúltimo“és o último”, em tradução livre do espanhol -, aberta em meados do mês passado em Barcelona, a mega-hiper-ultra trendy capital da Catalunha. Inspirada no modelo de negócios free, do escritor de negócios norte-americano Chris Anderson, a idéia da loja é simplesmente a seguinte: entrar, pegar o que quiser e sair sem pagar nada! Fantástico, não?! Pelo menos é o que parece…
Claro “tudo de graça” é uma força de expressão, pois afinal alguém acaba pagando a conta. Nesse caso, o inovador é a repartição de custos entre empresas e consumidores. Para entrar na loja, o consumidor deve associar-se mediante um cadastro e pagar uma taxa semestral de míseros 5 euros. Já as empresas entram com os produtos na prateleira – e, de quebra, aproveitam muito mais do consumidor…
Aí reside o segredo de negócio: além de servir como forma de exposição ao consumidor, a Esloúltimo funciona como um “laboratório de consumo”, isto é, é a aceitação dos produtos é testada por parte dos consumidores cadastrados. Desta maneira, diferentes aspectos do produto são avaliados in loco tais como embalagem, características, disposição nas prateleiras, além de testes de comunicação e mídia. Ou seja, trata-se de uma pesquisa experimental quase que de graça (em se tratando de uma metodologia de pesquisa caríssima, não deixa de ser bastante interessante para as empresas envolvidas), num caso criativo e engenhoso de parceria envolvendo empresas e clientes.
Como tudo que é mirabolante, a engenharia financeira do negócio é intrincada. Já que os consumidores pagam uma mísera taxa de cadastro semestral e as empresas não pagam nada para expor os seus produtos, afinal quem paga a conta disso? Em resposta, o Guía de Tendencias – grupo espanhol responsável pelo empreendimento – pretende vender às empresas parceiras uma gama de pesquisas sobre o comportamento dos consumidores em seu ambiente de compras. Isso é o que eu chamo de unir o útil ao agradável, não acham?!
Os itens disponíveis na referida loja são variados: desde cosméticos, produtos de higiene pessoal, limpeza, passando por refeições congeladas, alimentos e até mesmo cervejas em sabores inusitados que passam pelo crivo dos consumidores. Em tempo, os produtos são expostos tanto em tamanhos de amostra grátis quanto em suas versões comerciais.
O mais legal de tudo, no entanto, vem agora: na primeira quinzena desde a sua abertura, a loja vem recebendo a adesão de cerca de 600 a 800 novos clientes – a previsão inicial era de apenas 400 a 500 clientes! O sucesso do empreendimento foi tão grande, que durante os primeiros dias de funcionamento as filas de entrada na loja duravam até 4 horas! A fim de evitar este incômodo, a empresa criou um sistema de agendamento que permite que cada consumidor possa ir à loja uma vez a cada 15 dias, mas sempre levando a mesma quantidade de produtos. Afinal, quem disse que free rima com desconforto?
Na loja de Barcelona, atualmente são 78 empresas-parceiras – dentre as quais, gigantes do varejo como a Sara Lee, a Bimbo e a Pepsico – que podem expor os seus produtos em suas prateleiras em um espaço de tempo que varia de 15 dias a um mês.
A bem da verdade, o conceito da Esloúltimo não é bem uma novidade, posto que é inspirado no modelo das lojas de amostras grátis no Japão – mas até então inédito no Ocidente. O plano de negócios da empresa controladora envolve a abertura de uma outra loja em Madrid em fevereiro do ano que vem, bem como a chegada a outras capitais européias durante o ano de 2010. No entanto, o mais interessante disso tudo é que há a promessa de chegada da cadeia até o Brasil e os Estados Unidos. Imaginem só o frisson que isso iria causar em nosso mercado consumidor?

As nove nobres virtudes da Tradição Nórdica

1. Coragem é ter ousadia de agir corretamente, sempre.

2. Verdade é a disponibilidade de ser honesto e falar somente aquilo que se sabe verdadeiro e justo.

3. Honra é a certeza de conhecer seu valor e sua nobreza interiores e o desejo de respeitar essas qualidades quando encontradas no outro.

4. Lealdade é a vontade de ser leal para com seus Deuses e Deusas, seu povo, sua família e seu próprio ser, sem restrições.

5. Disciplina é a determinação de ser duro, primeiro consigo mesmo e depois, quando necessário, com os outros, para assim alcançar maiores realizações.

6. Hospitalidade é a boa vontade em compartilhar aquilo que é seu com seus semelhantes, especialmente quando eles estão longe de casa.

7. Eficiência é a determinação de trabalhar arduamente e gostar daquilo que se faz, sempre.

8. Auto-suficiência é o espírito de independência alcançado não somente para si, mas para sua família, sua tribo sua nação.

9. Perseverança é a tenacidade de persistir em seu propósito, sem desistir perante os fracassos, mas reconhecer e avaliar suas causas e analisar seu propósito. Se ele for verdadeiro e benéfico, perseverar até conseguir o sucesso.

Extraído de: Mirella Faur. Mistérios Nórdicos. São Paulo, Editora Pensamento, 2006, p. 296

A vida desse Escriba que vos fala não anda nada fácil. Viagens, livros para escrever, provas para corrigir, reuniões mil, muitos trabalhos diferentes… Mesmo para um viciado em adrenalina e portador de um atenuado distúrbio de atenção, isso proporciona um cansaço e um certo grau de descolamento da realidade. Além disso, reduz a nossa perspectiva de contato social, posto que estou sempre em trânsito, de um lado para o outro do país, de cidade em cidade. Resultado: tenho adquirido um vasto conhecimento a respeito de aeroportos, hotéis, aviões…

Apesar dos pesares, me considero um sujeito de sorte! A minha profissão ocupa um enorme espaço em minha vida, posto que eu adoro o que faço! Me identifico profundamente com o ofício de educador, uma vez que gosto muito da idéia de transmitir o que estudo e empreendo sob forma de conhecimento para outras pessoas. Como, apesar da aparência em contrário, tenho uma personalidade difícil e fortemente introvertida, dar aulas para mim é uma forma de sair da minha redoma de livros, autores, teorias – a window to the world. Costumo dizer, para quem me é mais querido e amiúde que, se não fossem as aulas, eu seria um eremita daqueles a ficar trancafiado de 10 a 15 horas por dia rodeado de papiros, imerso em pensamentos, a tentar reconstruir os passos perdidos e misteriosos da civilização humana…

É por esses motivos – invariavelmente, trabalho – que não pude comparecer à cerimônia formatura dos meus alunos do MBA de Marketing da FGV Rio de Janeiro, das turmas 70 e 71. Em ambas as ocasiões, eu estava fora do Rio de Janeiro – como estou agora, digitando essas linhas da belíssima e ensolarada capital gaúcha de Porto Alegre. Em ambas as situações, fui escolhido professor homenageado. Em ambas, perdi a oportunidade de congraçar-me com os meus queridos alunos. Uma lástima, posto que a homenagem prestada pelos alunos é o ápice para qualquer professor que ama verdadeiramente o seu ofício…

Apesar de não ter estado presente, gostaria de agradecer imensamente aos alunos de ambas as turmas pela honra de me terem concedido essa homenagem. Como professor, a minha relação com o conhecimento não é do âmbito da vaidade e da promoção pessoal, mas sim da troca de idéias, da difusão de conhecimentos, da criação de boas relações sociais e, por fim, dos estabelcimento de vínculos de amizade. Não é à toda que mantenho com alguns alunos uma relação mais amiúde e duradora, seja sob forma de e-mails ou nas redes sociais da vida.

Tal homenagem apenas me dá a certeza de continuar no meu caminho de ensinar, de difundir conhecimento, de transmitir o que sei para as outras pessoas, que estão em busca de informação atualizada, ética e comprometida com a nossa realidade e o nosso país. Ser reconhecido pelos meus alunos, dessa forma, é o máximo que eu posso ter! O resto é balela, é discurso vazio, enrolação…

Apesar de distante, me sinto absolutamente irmanado com os alunos de ambas as turmas, e muito feliz com mais essa vitória de vocês, conquistada a base de muita leitura, estudo, provas, textos e apresentações em sala de aula. Saibam que eu me orgulho em demasia de vocês, e espero que daqui em diante vocês possam trabalhar no sentido de tornar o nosso país mais rico, ético, fraterno e criativo.

Aceitem, portanto, as mais sinceras desculpas deste humilde professor que vos fala. E saibam que, mesmo distante, estou sintonizado com os corações e mente de cada um de vocês!!!

Meus parabéns, e muito sucesso para todos!!!











As peripécias desse Escriba que vos fala em terras celtíberas-suevas-lusitanas não se esgotou quando do meu retorno ao Brasil, há cerca de três semanas atrás, após uma semana memorável. Portugal, locus de minhas raízes, não é fácil de se afastar. Pelo contrário, trago o país, o seu povo, a sua gente e os seus costumes em meu sangue, em meu pensamento, em meu coração. Apesar de brasileiro, e amar a terra onde vivo, não é nada simples esquecer que, no distante outro lado do Atlântico, é que repousam as minhas origens. Tenho essa sensação todos os dias, a todo o instante, a todo o momento. Talvez seja por isso que o suave olor da maresia está sempre a me acompanhar, assim como o gosto da água salgada que permeia os meus lábios, todas as vezes que sinto uma profunda nostalgia de ter deixado a minha terra natal…

Para mim, luso que teimo em não ser, um porto é um lugar feérico por excelência; afinal, há algo mais continental, mais denso, mais íntimo do que o porto que nos tornamos? Ou será que inventamos viagens apenas pelo puro prazer de, ao final, retornar ao ancoradouro de nossas almas? O nosso eu, penso cá com os meus botões, é apenas uma baía calma e protegida, cujas águas cálidas e plácidas nos abrigam desse imenso e majestoso oceano que cabe no pequeno espaço dos nossos corpos…

Todas as vezes que sinto um gosto salgado na boca, é porque tenho uma tremenda saudade de mim mesmo – e de tudo aquilo que amo, prezo e venero. A lembrança de um tempo antigo onde o mundo era mais simples, as emoções eram à flor da pele e não precisávamos tanto de posar como super-homens me é extremamente fascinante. Daí, talvez, cidades com grande peso histórico e com um certo teor de decadência me atraiam tanto – dentre elas, Lisboa e Buenos Aires, as que mais conheço e admiro…

Portugal me assedia, e eu não consigo me livrar de Portugal, tenho de humildemente confessar! Nesta semana que se finda, impossível não acorrer ao cinema e assistir a última película do consagrado cineasta espanhol Carlos Saura. Apesar de ter sido lançado em 2007, e só agora ser exibido no circuito comercial brasileiro, uma obra de arte nunca se esgota, nunca envelhece, pois sempre rejuvenesce. Especialmente os filmes de Saura, onde o lirismo das imagens e a beleza da fotografia é superlativa por si só…

Fados (2007), é uma continuação da série de documentários “viso-musicais-coreográficos” que o diretor vem empreendendo com maestria tendo como tema a música da latino-luso-ibérica. Foi assim com as películas anteriores, os magistrais Bodas de Sangue (1981), Carmen (1983), Flamenco (1985), Tango (1998) e Iberia (2005).

Assim como os seus “irmãos” samba e o tango, o fado é um ritmo tipicamente urbano, nascido nas classes mais pobres, em meio à cafetões, prostitutas e “inferninhos”, com músicas que tocam à fundo na alma, a cantar as desesperanças, as desilusões, os amores desfeitos, a melancolia sem fim, a dureza da vida. Afinal, como diria o maestro Tom Jobim, o samba nasce da tristeza, e a felicidade tem fim…

Fados é de uma beleza indescritível, apesar de ser capaz de gerar enfado no espectador que porventura não seja um apreciador da musicalidade e da riqueza poética de uma dessas maravilhas que Portugal produziu para o mundo. Nesta película, Saura casa com extrema felicidade, beleza e poesia os instrumentos típicos, o canto saudoso e doído com a dança e a expressão corporal dos bailarinos-atores que se sucedem ao longo do filme. Não me surpreende em nada afirmar que Fados é uma obra-prima das artes plásticas, dada a beleza dos closes nos rostos de cada intérprete, a riqueza das vestes e o jogo multifacetado dos espelhos que o diretor já tinha explorado com maestria em suas películas anteriores.

Tradição e novo, antigo e contemporâneo, metrópole e colônia, Portugal e seus vizinhos, todos se irmanam e se entrecruzam no filme. A saudosa Alfama das casas de fado e a belíssima Mouraria com seu quê de Santa Teresa, miradoiros bucólicos e eléctricos a quase triscar as paredes do casario estão lá, presentes nas vozes de intérpretes consagrados do quilate de uma Amália Rodrigues, de um Carlos do Carmo e de um Alfredo Marceneiro. A juventude lusa repousa nos “duelos” travados nas cenas gravadas na famosa Casa dos Fados, na Alfama (envolvendo Vicente da Câmara, Ana Sofia Varela e Pedro Moutinho). A africanidade das colônias está no rap (SP & WIlson e NBC), na world music (Lila Downs) e nos folguedos típicos das ilhas, reminiscências de um passado que nos lembra até onde os portugueses chegaram com suas naus no passado. A herança entre metrópole e colônias está na belíssima voz da moçambicana Mariza, e na emocionante interpretação de Chico Buarque do seu “Fado Tropical” (escrito em parceria com Ruy Guerra), tendo ao fundo cenas projetadas da Revolução dos Carvos. Tocante, pungente, inesquecível …

Também há outras cenas memoráveis no filme. Como, por exemplo, Carlos do Carmo entoando o fado Lisboa enquanto cenas do cotidiano da capital portuguesa são projetadas nos telões. Ou então, o dueto entre a moçambicana Mariza e o espanhol Miguel Poveda na canção Meu Fado, mostrando o quão próximos são estes dois países, seus povos, sua cultura, sua culinária e sua música. Ou então nas cenas de arquivo com imagens de Amália Rodrigues, a fadista-mor. Ou então, na dança pagã das mulheres ao redor da fogueira, ou da fadista cantando a história da fadista morta ao som de um realejo irlandês. Típicas lembranças de um passado pagão na Península Ibérica, e que a cristandade tentou apagar mas não conseguiu…

A se lamentar, a participação inexpressiva do brasileiro Tony Garrido, com uma vozinha mixuruca e uma interpretação prá lá de afetada. Absolutamente desnecessária. E também não gostei nem um pouco da participação do Caetano Veloso…

Tudo isso são pequenos deslizes frente à beleza que é o fado, visto pelas lentes de Carlos Saura. Quem puder, veja! Quem não puder ir ao cinema, depois compre ou alugue o DVD. Mas não percam a oportunidade de assistí-lo, pois ajuda a compreender o tamanho da herança lusa em nossa identidade, corpos e mentes.

Agora, silêncio! Pois, como diria Amália Rodrigues, agora se vai cantar o fado…

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