07.10.09

FRASES AVULSAS…

Enviado em Estratégia, Pensamentos às 1:48 am por Jose Mauro Nunes

“Como regra geral, o homem mais bem-sucedido é aquele que dispõe das melhores informações” (Benjamin Disraeli).

Só existem três tipo de empresas: as que fazem as coisas acontecerem, as que ficam observando o que acontece e as que ficam se perguntando o que aconteceu” (Philip Kotler).

“Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento e onde está o conhecimento que perdemos na informação?” (T.S. Elliot)

07.09.09

DICA DE CD – PAUL SHORTINO & JK NORTHRUP – "Back On Track"

Enviado em CD, Hard Rock, Música às 8:13 pm por Jose Mauro Nunes

Quando eu era jovem (bons tempos esses!), vivi a efervescência do heavy metal europeu e do hard rock norte-americano oitentista, uma das épocas mais interessantes do ponto de vista musical. O movimento do rock pesado era dividido – até então – em duas vertentes muito bem demarcadas: a européia, mais pesada e épica, influenciada por sons mais sombrios de bandas britânicas capitaneadas pelo Black Sabbath, e que geraram o movimento do NWOBH (New Wave of British Heavy Metal), onde despontaram bandas famosíssimas – como Iron Maiden e Def Leppard – e outras nem tão famosas assim – como Samsom, Saxon e Raven.

Do outro lado do Atlântico, especialmente na ensolarada Califórnia, o som pesado tomou um outro rumo, influenciado pelo glam rock, pelo rock de arena, com pitadas de blues e folk music. Bandas como Mötley Crüe, Dokken, Twisted Sister, Quiet Riot, Ratt, Warrant, Poison, Rough Cutt, Icon dentre inúmeras outras deram origem ao chamado movimento poser. Em linhas gerais: guitarras alucinadas, cabeludos com muito laquê e visual andrógino, clips repletos de carrões e mulheres lindíssimas com cara de “primas”, tudo dentro da mais pura atitude do sex, drugs & rock’n'roll. Just for Fun!

No entanto, essa atitude descontraída e um tanto o quanto descompromissada levou muitos fãs de rock a desconsiderarem a qualidade de muitas dessas bandas. Por exemplo, o Dokken é uma das minhas bandas prediletas e que continua lançando discos até hoje, a despeito do fantástico guitarrista George Lynch não fazer mais parte do lineup da banda. A bem da verdade, tinha muita tranqueira de péssima qualidade, mas algumas bandas tinham um trabalho muito bom e consistente, e que foi desprezado por puro preconceito da galera que curtia um som mais pesado.

Nesse contexto, uma banda sempre chamou a minha atenção não apenas pela qualidade de seu som, mas também pelo seu vocalista. Paul Shotino, do Rough Cutt, em minha opinião é uma das melhores vozes que já surgiu no hard rock não apenas pela sua técnica vocal, mas também pelo aspecto inusitado de seu timbre rouco – algo pouco usual em um meio onde ou os vocalistas emitem falsetes agudíssimos à la Rob Halford, ou então grunhem como ogros no mais puro estilo gutural. Esse certamente não é o caso de Shortino, sempre com seu fraseado elegante, apoiado por uma puta banda de hard rock.

Infelizmente, o Rough Cutt não teve o sucesso de público e de crítica que merecia, apesar de dois belíssimos discos. Além disso, no final dos anos 1980, o grunge e a sonoridade punk daí oriunda começou a suplantar a hegemonia do hard rock, substituindo os “cabeludos” e os clips com mulheres pelo visual desgrenhado, camisas de flanela e uma atitude depressiva e suicida.

(Apenas um parêntesis: antes que me entendam mal, gosto muito de bandas grunge como Nirvana, Soundgarden e Pearl Jam).

Com o fim do Rough Cutt, Paul Shortino passou pelo Quiet Riot e iniciou a sua carreira solo. Infelizmente, também não conseguiu atingir o reconhecimento necessário. No entanto, com a internet, há a possibilidade de resgatar os seus trabalhos e, para os fãs de hard rock, vale muito a pena escutar a voz de Shortino tanto no Rough Cutt e no Quiet Riot quanto em sua carreira-solo.

Estou escrevendo este post enquanto escuto nos fones do meu iPod, a todo volume, o disco que ele fez com o virtuoso guitarrista JK Northrup, figurinha fácil no rock americano dos anos 1980 e 1990. Back On Track, lançado em 1993, é um clássico do hard rock oitentista, um dos mais poderosos exemplares desse estilo que tanto eu gosto, e que é parte significativa dos meus arquivos de música que me acompanham o tempo inteiro. Estão lá todos os elementos clássicos desse estilo: riffs de guitarra poderosíssimos, solos velozes e virtuosos, com uma “cozinha” baixo-bateria pesada sem ser excessiva, dando vazão a bela voz de Paul Shortino.

Back On Track abre com a “pancada” When There Is Smoke, uma melodia agradabilíssima para os ouvidos ávidos por um hard rock de verdade. A sonoridade bluesy vem com a faixa seguinte, Body and Soul, uma maravilha de som! O peso corre solto em faixas como Bye-Bye To Love, Rough Life, The Kid Is Back In Town (fantástica!), Pieces (excelente!) e a “bluesada” Girls Like You. Ainda tem espaço para baladas como Forgotten Child, Remember Me e Everybody Can Fly. Em suma, é ouvir até cansar (como se isso fosse possível)!!!

O disco conta com a paticipação de vários artistas convidados, como os bateristas James Kottak e Carmine Appice e os baixistas Jeff Pilson, Matt Bisonette e Sean McNebb. Um time de primeira qualidade!

Enfim, mil palavras não descrevem a sonoridade desse disco. É um item obrigatório na coleção de qualquer aficcionado por som pesado! Se os meus queridos leitores gostam desse tipo de som, não fiquem aí parados e tratem de buscar na internet esse disco. Garanto que vai agradar em cheio os amantes da música pesada, como esse Escriba que vos fala.

CRISE ATINGE O ANDAR DE CIMA DA PIRÂMIDE

Enviado em Brasil, Economia, Estratégia, Marketing, Renda às 3:03 pm por Jose Mauro Nunes

Estudo recente realizado pelo pesquisador Marcelo Neri, da FGV, mostrou que a crise econômica atingiu de maneira diferenciada a pirâmide de renda brasileira. Nesse caso, o impacto apurado foi muito maior nos segmentos mais ricos em comparação aos estratos menos favorecidos localizados na base da pirâmide.

Segundo a pesquisa, de janeiro a abril desse ano a renda média individual dos integrantes das classes A e B, habitantes das seis principais regiões metropolitanas do país (São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Algre, Belo Horizonte, Salvador e Recife), caiu 8,7% em comparação ao mesmo período apurado em 2008 – de R$ 2.637 para R$ 2.407. Vale lembrar que, já em 2008, a renda desses mesmos indivíduos caiu cerca de 7,01% em comparação aos números de 2007.
Em compensação, a classe C – que vem sofrendo o maior impacto desde o início da crise no segundo semestre do ano passado – vem apresentando uma recuperação animadora. A renda média dos indivíduos dessa classe subiu 3,9% entre janeiro e abril desse ano, em comparação aos dados de 2008 – de R$ 625 para R$ 649. Em 2008, a classe C já apresentava um aumento da renda média individual de cerca de 6,12%.
A explicação para este impacto diferenciado é clara: a renda das classes A e B é mais dependente dos setores mais internacionalizados – portanto, mais sensíveis à crise – da economia brasileira, enquanto que a renda da classe C é mais dependente das condições do mercado interno, menos afetado pelos acontecimentos mais recentes. A crise afetou mais os empregos vinculados aos setores industrial e financeiro, onde se encontram a maior parcela dos empregos dos segmentos mais privilegiados da pirâmide de renda. Em contrapartida, os rendimentos da classe C estão atrelados ao salário mínimo, que vem sofrendo reajustes significativos acima da inflação, o que explica em grande parte este fenômeno de “blindagem” da renda contra a crise econômica global.

DESEMPREGO ATINGE EM CHEIO OS JOVENS BRASILEIROS

Enviado em Brasil, Economia, Educação, Jovens às 12:45 am por Jose Mauro Nunes

E a maré não está para peixe quando o assunto é a juventude do nosso país. Em relatório recente divulgado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), intitulado Trabalho Decente e Juventude no País, as péssimas condições de trabalho e o desemprego atingiram níveis críticos no segmento entre 15 a 24 anos.

O estudo, que baseou-se nos dados recolhidos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE entre os anos de 1992 a 2006, mostrou que 67,5% dos jovens na faixa etária acima descrita estavam, em 2006, ou desempregados ou na informalidade. Além disso, a correlação entre desemprego, gênero e etnia mostrou-se bastante significativa em nosso país – o número de mulheres jovens desempregadas (70,1%) é maior que o de homens jovens desempregados (65,6%), assim como o número de jovens negros desempregados (74,7%) é muito maior em comparação ao número de jovens brancos na mesma situação(59,6%).

Vale lembrar que, com a crise que atingiu a economia mundial desde o segundo semestre do ano passado, o quadro deve piorar sensivelmente – aumentando ainda mais a situação de precariedade dos jovens no mercado de trabalho. E, o pior disso tudo, é que quanto maior a precariedade, maior a incidência de uso de drogas, a violência urbana e a frequência de aparecimento de comportamentos sociais desviantes e de risco. Isso ocorre em Paris, Londres, Madrid, Bombaim, Los Angeles, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte…

E a escola, que poderia nesse caso funcionar como uma espécie de “colchão protetor”, parece ter um efeito contrário ao esperado dadas as elevadas taxas de evasão escolar observadas no ensino médio brasileiro. Além da intensa jornada de trabalho por parte dos jovens – segundo o estudo, mais de 30% dos jovens pesquisados trabalha mais do que 20 horas semanais, prejudicando a frequência escolar -, a escola é considerada maçante, desinteressante e absolutamente alienada dos dilemas e desafios enfrentados pelos meninas e meninas em nosso país. E a perspectiva de mudança de tal percepção do ambiente escolar a curto prazo, por parte da juventude, é bastante remota…

Ou seja: ou os governantes encaram com seriedade o problema da juventude e formulam um conjunto de políticas públicas sérias e eficazes direcionadas a este estrato populacional ou então, parodiando a famosa canção de Moraes Moreira, o Brasil irá continuar descendo a ladeira abaixo…

07.08.09

EM TEMPO

Enviado em Cinema, Documentário, Estados Unidos, Guerra Fria, História Contemporânea, Política, Relações Internacionais às 1:33 am por Jose Mauro Nunes

Aproveitando o ensejo, quem já viu deve revê-los, e quem não viu, deve vê-los. Trata-se de dois filmes: o documentário de Errol Moris, Sob a Névoa da Guerra: Onze Lições da Vida de Robert S. McNamara (2003), e a película Treze Dias Que Abalaram o Mundo, de 2000, com Kevin Costner.

Ambos o filmes, a seu modo, são intrigantes, instigantes, reveladores e desafiadores. São verdadeiras aulas de política, estratégia, planejamento e processo decisório, história militar e história mundial contemporânea. Ambos são importantíssimos e essenciais…

Garanto que os meus nobres leitores não irão se arrepender. Eu recomendo cada minuto dispendido!

ROBERT McNAMARA (1916 – 2009)

Enviado em Estados Unidos, Estratégia, Guerra Fria, História Contemporânea, Política, Relações Internacionais às 12:38 am por Jose Mauro Nunes

Na semana que se inicia, todo o mundo parou hoje para ver o “showfuneral” do astro da música pop norte-americana Michael Jackson. Independentemente do gosto estético e da popularidade póstuma do artista (que, diga-se de passagem, nos últimos anos destacou-se mais pelas suas bizarrices do que propriamente pelo seu talento artístico), prestou-se pouca atenção a um outro passamento – este mais importante para aqueles que, como esse Escriba que vos fala, são ávidos estudiosos da história do mundo contemporâneo.

Nessa segunda-feira, morreu em Washington uma das figuras mais polêmicas e controvertidas da história mundial recente: o ex-Secretário de Defesa dos EUA, Robert Strange McNamara. Tendo servido à duas presidências norte-americanas – a de John F. Kennedy e a de Lyndon Johnson, entre 1961 a 1968 -, em plena efervescência da luta entre as duas grandes superpotências pela predominância no sistema de poder internacional, McNamara foi um dos principais artífices e idealizadores da política norte-americana dos anos 1960 durante o turbulento e tenebroso período da Guerra Fria.
McNamara destacou-se desde cedo em sua carreira na montadora de automóveis Ford, onde inclusive chegou a ocupar a Presidência, por sua capacidade de planejamento e sua incrível habilidade em raciocínio quantitativo – tendo inclusive recebido a alcunha de “whiz kid” (garoto-prodígio) -, o que o levou a ser convidado em 1960 a ocupar o cargo de Secretário de Defesa pelo presidente eleito John F. Kennedy.

Sua principal contribuição, no âmbito do cenário conturbado da Guerra Fria, foi a criação de uma nova filosofia estratégica baseada na contenção do conflito nuclear – a partir da constatação do cenário “M.A.D.” (Mutually Assured Destruction) e no desenvolvimento de um arsenal nuclear baseado em armamentos táticos – entendidos como elementos de disuassão e não de ataque efetivo. McNamara sabia que, dado o início de um ataque nuclear, as chances de aniquilamento da civilização humana eram bastante reais e concretas, o que o levou a incluir em seu cálculo estratégico de dissuasão a racionalidade dos atores políticos envolvidos – presidentes, estrategistas militares, membros da burocracia estatal e opinião pública. Daí, a rejeição à tese da “retaliação maciça” – defendida pelos estrategistas militares do governo Eisenhower – em direção à doutrina da “resposta flexível”, baseada na combinação de armas convencionais e nucleares em menor escala.
McNamara foi uma personagem importante em dois outros eventos cruciais da história norte-americana recente. O primeiro foi durante a Crise dos Mísseis de Cuba, ocorrida em 1962, e que foi magistralmente retratada no filme Treze Dias Que Abalaram o Mundo (Thirteen Days, 2000), com Kevin Costner. O segundo foi a famigerada Guerra do Vietnã, luta contra a insurgência comunista vietcong liderada por Ho Chi Min e o general Giap, que teve início no governo Kennedy – tendo sido justificada pela famosa Teoria do Dominó das revoluções comunistas, proposta pelo próprio McNamara. Aliás, o fracasso da administração Johnson em lidar com a questão do Vietnã não apenas jogou por terra com o sonho da reeleição do presidente, mas também custou o cargo do próprio McNamara.
Após a sua saída do governo, trabalhou de 1968 a 1981 no Banco Mundial, onde coordenou uma série de projetos de auxílio para os países em desenvolvimento. Além disso, escreveu uma série de artigos e um livro de memórias (In Retrospect, de 1995), onde reconsidera os eventos da Guerra do Vietnã a partir de uma análise histórica recente.
Em 2003, a personagem de McNamara fez sua reentrada no cenário atual com o documentário Sob a Névoa da Guerra – Onze Lições da Vida de Robert S. McNamara, do cineasta Errol Morris, e que foi agraciado com o Oscar de Melhor Documentário em 2003. Trata-se de uma belíssima película que, sob a forma de entrevista, leva McNamara a refletir sobre diversos aspectos da sua vida e obra, inclusive uma análise bastante crítica e reveladora sobre uma série de percalços que levaram ele e os EUA a se equivocarem quanto à Guerra do Vietnã – sem sombra de dúvida, uma das maiores feridas abertas no narcisismo americano até os dias de hoje.
Enfim, numa semana onde todos estão focados na crise do Senado Federal, nos passos do moonwalk e no eclipse lunar de hoje à noite (daqui há pouco), não poderia deixar passar em branco esse acontecimento. Robert McNamara é, sem dúvida alguma, uma das personagens mais fascinantes e enigmáticas da história mundial recente.

07.07.09

O HOMEM DO COLAR DE ÂMBAR: ATRAVÉS DO ESPELHO

Enviado em Meus contos, Pensamentos às 6:57 pm por Jose Mauro Nunes

Ao ver o ancião projetado no espelho, pensou estar imerso em um estado de alucinação onírica semelhante ao experimentado por xamãs, videntes ou oráculos, e que tanto adornavam os seus livros de história antiga. Estes eram fervorosamente lidos desde tenra idade, e as anotações eram minuciosamente feitas e refeitas em letra de forma, verdadeiros arabescos superpostos, tal como em camadas sedimentares semelhantes a um palimpsesto – e que algum geólogo mais indiscreto poderia identificar com uma certa facilidade os diferentes períodos da história de sua vida, suas conquistas, suas angústias, suas virtudes e seus erros.

De repente, como num clarão de luz, todas as imagens projetadas do chão ao teto de sua biblioteca sumiram de sua vista, assim como o sábio ancião, deixando-o órfão em seus pensamentos. “Menos mal”, pensou ele, “pois tenho as minhas digressões a me acompanhar”. “Antes só do que mal acompanhado”, frisou de maneira categórica, acostumado que estava em passar grandes intervalos de tempo sozinho, absorto em digressões, a meditar sobre a essência da natureza, sobre as coisas, as pessoas, as órbitas dos planetas, a sucessão das estações, o universo, a vida…

Correu então para abrir os livros de civilizações outrora desaparecidas, que costumava deixar em uma prataleira remota ao longe dos olhos de visitantes incautos e mal intencionados, ávidos em perscrutar os seus segredos. “A vida de uma pessoa costuma ser ilustrada pelas lombadas dos livros que ela lê”, filosofava, buscando estabelecer uma conexão entre o prazer estético da leitura e a circunvolução dos movimentos da alma. O conhecimento, para ele, era o fim, o começo e o recomeço do ciclo de todas as coisas da vida. “Costumamos colocar um pouco do nosso ser em cada letra, em cada espaço, em cada página, em cada volume que dispomos em nossas mãos”, afirmava de maneira displicente, enquanto folheva avidamente os surrados volumes em busca de uma explicação, um sinal, um presságio a respeito da experiência transformadora que acabara de ter vivenciado.

Deparou-se com um livro que seu pai tinha-lhe dado em tenra idade, e imediatamente veio-lhe a mente a frase por ele proferida naquela ocasião. “Meu querido filho”, disse-lhe, “um dia você irá compreender todos esses símbolos, todas essas imagens, todo esse conhecimento que generosamente lhe oferto como uma oferenda aos deuses”. “Tudo a seu tempo, tudo a seu tempo…”, essa frase ecoava em seu pensamento tal como o hálito fresco de um aforisma mágico que está prestes a ser decifrado. Era difícil, mas tinha de controlar a sua impaciência, uma presença constante e incômoda em seu jeito de ser e de agir. “Talvez tenha chegado a hora de atender a este chamado”, animou-se, enquanto abriu o volume empoeirado em um página reveladora.

Atônito, identificou a presença impressa dos mesmos símbolos há pouco projetados em sua biblioteca, ao olhar com detalhes a arquitetura grandiloquente dos grandes monolitos de pedra da Bretanha, mais especificamente em sítios arqueológicos como os de Stonehenge, Newgrange e Avebury. Nos monumentais pedaços de pedra encontravam-se engastados as onipresentes espirais, misteriosos sinais encrustrados na mais dura e espessa rocha, que eram elegantemente decoradas por essas inscrições crípticas que adornavam a entrada e os pilares de sustentação desses sítios, verdadeiros fósseis vivos ao ar livre, e que sofriam o efeito das forças da natureza.

Eram os triskelions (ou triskeles), as enigmáticas três espirais entrelaçadas, símbolo mágico da civilização celta, cujos seus ancestrais já as encrustavam na mais dura rocha em sítios remotos, verdadeiras fontes de inspiração e recordação para povos futuros da inalienável relação entre o humano, a natureza e o místico.

O triskelion era também interpretado como representando a natureza tríplice do universo e do homem – a natureza tripartite da alma, do corpo e do intelecto. Todos integrados, irmanados, entrelaçados, entretecidos em uma delicada tessitura, inevitavelmente apontando para a necessária harmonia e equilíbrio entre esses três elementos.

Seria isto um lembrete do quão era desequilibrada a sua vida, dada a prevalência do intelecto e da cognição em detrimento dos sentimentos e do afeto? Era conhecido como um homem cuja desenvoltura de pensamentos era inegável – fonte de admiração dos amigos e de inveja dos inimigos. No entanto, era também sabido o diminuto papel que as emoções exerciam em sua vida, bem como a supressão da espiritualidade em sua maneira de ser e de agir. A espiritualidade era um capítulo à parte em sua vida, resultado de uma vivência infeliz em sua tenra infância, repleta de medos, repressões e maus augúrios. Nunca conseguiu entender, muito menos absorver, a idéia de entrelaçar-se a um símbolo religioso cujo mote era o sofrimento e a tristeza – sua onipresença era uma sinistra lembrança de que somos eternamente culpados por tudo de errado desde os tempos imemoriais. Tinha arduamente tentado se identificar a isso ao longo de sua vida, e agora de culpava por essa vacuidade, esse esvaziamento existencial…

Por estar absorto em pensamentos, imagens e símbolos que invadiam e transbordavam em seu ser, mal teve a chance de notar a presença de um inusitado espectador em seus devaneios. Ao olhar de repente para o espelho, deparou-se novamente com uma outra figura; não mais o enigmático ancião com o colar de âmbar, mas agora uma criança, adornada com uma túnica alva, imaculadamente branca, que lhe cobria todo o corpo. Assombrado, voltou-se para trás e percebeu que não se tratava de mais uma de suas (recentes) alucinações, mas um enigmático e inocente companheiro de jornada…

Ao virar-se, a criança levantou-se e estendeu o braço em sua direção, entrelaçando a sua mão delicadamente, e levando-lhe em frente ao mesmo espelho. Ato contínuo, a criança abriu os lábios e entoou em sua ingênua e sábia voz: “Fique calmo, você deve estar muito assustado com tudo isso. Relaxe, pois a sua jornada está apenas começando. Não apenas a sua jornada pessoal, mas a de toda a humanidade, que é milagrosamente reencenada a partir da vida de cada indivíduo”. Assustado, retrucou: “Do que se trata tudo isso? Os símbolos na parede, o chão adornado, as espirais em minha mente?”. A criança, cada vez mais sábia, lhe disse: “Uma coisa de cada vez. Não seja ávido em buscar respostas prontas, pois a justa pode exaurir-lhe as forças e turvar a sua mente. Tudo isso, repito, é apenas o início de uma nova jornada em sua vida, onde o equilíbrio haverá de reinar por entre as sombras do medo e da angústia”.

Ao olhar no espelho, se viu vestido com a mesma túnica branca, alva como a inocência infantil, e imaculada como a clareza de pensamentos. Em seus dedos, pendia o mesmo colar de âmbar do ancião. A criança tinha se transformado no ancião, que virou uma conta de âmbar, que tornou-se espiral entrelaçada, que transmutou-se em uma galáxia, com planetas e seus satélites gravitando ao seu redor. “Seja bravo e reto em seu espírito, e tenha perseverança”, uma voz lhe disse em alto e bom som. “Sua ordália está apenas começando”…

continua…

07.02.09

UM CONVITE DO ESCRIBA – MOSTRA FOTO RIO 2009

Enviado em Arte, Cult, Fotografia, Rio de Janeiro às 1:11 am por Jose Mauro Nunes

Essa é para os meus carioquíssimos leitores, ou então para os que pretendem passar alguns dias na Cidade Maravilhosa nos próximos dois meses. É para quem gosta de arte e, em especial, para os apreciadores da bela arte da fotografia.

Foi inaugurada nessa terça-feira a mostra FotoRio 2009 – Encontro Internacional de Fotografia do Rio de Janeiro. O evento, que já faz parte do calendário cultural da cidade do Rio de Janeiro, tem como objetivo revelar novos talentos – e também mostrar ao público o trabalho de nomes já consagrados – do cenário da fotografia carioca, brasileira e mundial. Como não poderia deixar de ser, o evento faz parte das comemorações do Ano da França no Brasil, com a presença de trabalhos interessantíssimos de fotógrafos franceses.

São 13 exposições divididas em dois andares do Centro Cultural Correios, localizado bem no meio do corredor cultural do centro da cidade, que abrangem diferentes dimensões da linguagem fotográfica: conceitual, cotidiana, onírica e documental.

O convite aos meus leitores é para que apreciem o projeto Carioca, da carioquíssima francesa Emmanuelle Bernard que, além de ser minha querida amiga, tive uma participação a partir de uma série de conversas regadas à muitos espressos, capuccinos, sushis e sashimis. Carioca se baseia em uma tentativa de retratar o cotidiano dos habitantes da Cidade Maravilhosa, em suas variadas vertentes e regiões. Apaixonada pelo Rio, Manu – como é carinhosamente conhecida – construiu um mosaico vibrante e intenso ao retratar o cotidiano de pessoas, situações e locais da cidade mais charmosa do Brasil, onde a vida fervilha e pulsa freneticamente.

Esse mosaico abrange diferentes locais, desde a onipresente praia, passando pela exuberância da floresta e o frenesi das ruas e das calçadas lotadas de gente. Diferentes situações como o pregão dos vendedores no comércio de rua e nos mercados populares do subúrbio, o frisson das torcidas de futebol, o lazer no calçadão e nas praças, a religiosidade presente nas igrejas, nos templos e nosterreiros de umbanda, a vibração da vida noturna carioca, representada pela boemia do samba e do chorinho, sempre regado a doses generosas de chope gelado, e que embalam os sonhos e os devaneios dos habitantes dessa cidade que foi (e é) cantada em verso e prosa por inúmeros poetas, músicos e artistas.

Estão lá presentes, no aconchegante mosaico que lembra um típico álbum de uma grande família, ricos e pobres, famosos e anônimos, negros, brancos e mulatos, cariocas da “gema” e cariocas “importados” ilustres. Zona Oeste, Zona Sul e Zona Norte, todos convergindo para o centro da cidade, que é o Maracanã. Tudo isso envelopado por uma trilha sonora cuidadosamente montada para dar ao visitante a melhor atmosfera possível da vida nessa cidade.

Carioca procura ilustrar algumas das facetas mais características dos habitantes do Rio de Janeiro, procurando romper com o monocromatismo midiático atual encetado no tripé “tráfico de drogas – violência urbana – milícia”. Para a artista, tais traços marcantes na alma carioca são a generosidade, a criatividade e a alegria de viver, que acabam compensando e superando as intempéries do cotidiano e todos os problemas inerentes a qualquer metrópole com tamanhas desigualdades e iniquidades sociais como o Rio de Janeiro.

O projeto é patrocinado pela montadora francesa Citröen, e a equipe de produção conta com a empresa de marketing cultural Turbilhão de Idéias – do meu amigo Gustavo Nunes - e do cineasta Márcio Melges. Vale assinalar que essa exposição é apenas um aperitivo, pois o livro com todas as fotos de Carioca tem a previsão de lançamento no segundo semestre, com uma exposição concomitante. Além disso, o texto do livro é de minha autoria, e posso dizer que foi um dos trabalhos mais interessantes, legais e prazeirosos que fiz até então – me fez descobrir ainda mais o prazer de ser um carioca da “gema”, nascido e criado no subúrbio, amante do futebol, do Flamengo, e do samba da Portela e do Império Serrano.

A exposição vai até o dia 2 de agosto. O Centro Cultural Correios fica na Rua Visconde de Itaboraí, 20, no centro, pertinho do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Uma pedida é que, após a exposição, vale a pena dar uma esticada nos bares e nos restaurantes do entorno, que são muito charmosos e interessantes. Se puderem, dêem uma passadinha lá e não deixem de apreciar as fotos do Carioca. Comentários serão muito bem-vindos, tanto no livro de visitas quanto aqui no blog. Garanto que a Manu vai adorar, e ela merece todo o sucesso do mundo!

06.30.09

EU SOU! VOCÊ TAMBÉM É?

Enviado em Brasil, Pensamentos, Política às 7:50 pm por Jose Mauro Nunes

A RIVALIDADE ENTRE RIO E SÃO PAULO ACABA NA MESA DO RESTAURANTE

Enviado em Brasil, Culinária, Gastronomia, Rio de Janeiro, São Paulo às 7:10 pm por Jose Mauro Nunes

Calma gente! Esse Escriba que vos fala não endoidou de vez! Antes que pensem que eu definitivamente me mudei para Moema, Paraíso ou Vila Mariana, ainda continuo sendo o mesmo “carioca da gema”: nascido e criado no subúrbio, filho das entranhas daquela que é a minha Cidade Maravilhosa, a cidade mais linda do mundo! Entretanto, isto não me impede de ver as delícias e as benesses de outras cidades espalhadas por esse nosso país. Afinal, essa minha profissão doublê de professor/caixeiro-viajante tem lá as suas vantagens…

Sou um carioca que gosta muito de São Paulo, apesar da garoa insistente e chata, da ausência da praia e do trânsito infernal – muito mais tétrico do que o vivido por essas pangas de cá. Falar da vida noturna de Sampa é “chover no molhado”: suas livrarias, cafés, restaurantes, bares, centros culturais, teatros e casas de show são tudo de bom! Prá ficar perfeito, só faltava a praia e o sol. Mas, como nem tudo é perfeito…
Uma parte do que há de melhor na “terra da garoa” vem chegando de mansinho no Rio de Janeiro, a partir da chegada de redes de restaurantes paulistanos como Bráz (pizzas), America (hambúrgueres) e Galeto´s (galetos com e sem osso). Quanto à pizza paulistana, ela é “hors-concours”: sequinha, massa fina e crocante e ingredientes de primeira qualidade. A America é uma rede velha conhecida minha, e às vezes quando vou com a minha esposa à São Paulo dou um jeito de almoçar por lá (coisa que a patroa não gosta muito, pois ela acha que engorda – e ela tem razão!). Já na última vez que estive em Sampa, almoçei com ela no Galeto´s do Shopping Eldorado, e ficamos maravilhados com o franguinho desossado, o creme de milho divino, o risoto de funghi caprichado e a polentinha quentinha e crocante – uma delícia! É de saborear rezando!
Como as três redes aportaram por aqui, é uma chance que os meus conterrâneos possam aproveitar um pouquinho da culinária paulistana. Não é à toa que o sucesso inicial dos restaurantes por aqui se deve ao elevado contingente de cariocas que vão à Sampa à trabalho durante a semana, e retornam na sexta-feira para curtir as praias e o sol carioca. Dentre os quais, evidentemente, esse Escriba que vos fala se encontra…
Só para se ter uma idéia de como esses restaurantes estão “bombando”, a filial carioca da pizzaria Bráz – localizada no Jardim Botânico – fatura mais do que os três restaurantes da rede em São Paulo. Além disso, o consumo de vinho é três vezes maior aqui do que lá (apesar da broxante Lei Seca). Em agosto próximo, a rede vai abrir o seu segundo restaurante na glamurosa Barra da Tijuca…
A Galeto´s inaugurou em abril desse ano a sua primeira unidade carioca no Barra Shopping, e é um sucesso absoluto – eu mesmo já estive lá almoçando com a minha esposa. A filial carioca já ocupa o segundo lugar em faturamento da rede, e está negociando a abertura de um segundo ponto no Rio no ano que vem, além de inaugurar ainda esse ano uma filial em Brasília.
Por fim, a América chegou primeiro no mercado carioca – mais especificamente em 2007 -, e também foi recebida de braços abertos por todos nós. A unidade é a 5a. colocada no quesito tíquete médio da rede, que é composta por um total de 14 restaurantes.
Como se pode ver, a velha rivalidade entre cariocas e paulistas continua animada. E, com certeza, o melhor lugar para discutí-las é na mesa do restaurante. O melhor de tudo é que o chope é geladinho e cremoso, uma delícia! Apesar desse inferno que é a tal da Lei Seca, e que tolhe esse pobre Escriba de beber em paz a sua garrinha de vinho…

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